sexta-feira, 27 de abril de 2012

As Bruxas de Salém


por Rogério Rasées


“a importância de um olhar contemporâneo”


                                  
                Este texto de Arthur Miller nos instiga imensamente a uma montagem que excede aos padrões realistas e naturalistas. Seu apelo místico toca emoções, sensações, energias e sentimentos que nos levam a pensar no ser humano independente de época e lugar. E pensando neste ser humano, discutindo suas questões, montamos este texto incrível que levamos à cena em julho de 2011, com apresentações na sala Glauce Rocha e no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, e em Santa Catarina. Abaixo consta o pensamento diretivo do espetáculo.


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Sinopse: Acontecimentos Principais


        Numa puritana cidade da Nova Inglaterra de 1692 – Salém, Massachusetts – o ministro local, reverendo Parris, encontra, numa noite, algumas meninas dançando na floresta, em companhia de sua escrava negra, chamada Tituba. Uma dessas meninas era sua sobrinha, Abigail Williams, e outra sua filha, Betty Parris, que, assustada, cai em um estado de torpor como um coma. Este fato gerou comentários sobre bruxaria na cidade, que Parris temia que recaíssem sobre si, já que a sua escrava, sua filha e sua sobrinha estavam envolvidas. Uma multidão se reuniu em sua casa, esperando suas observações. Questionada, Abigail afirmou que nada fizeram além de dançar. Enquanto Parris tentava acalmar a população reunida em sua casa, Abigail ameaçava as outras meninas, proibindo-lhes de contarem qualquer outra coisa, a não ser admitirem a dança. John Proctor, um fazendeiro local, que houvera sido empregador de Abigail sete meses antes e se envolvera com ela, estando a sós com Abigail adverte-a para que pare com essas bobagens junto com as outras meninas. Não obstante ainda sentir forte atração por Abigail, Proctor se culpa por ter traído sua esposa, que quando descobriu seu envolvimento com a empregada a despediu, e não se permite levar adiante esse affair, apesar da insistência da sobrinha do reverendo.



         Betty Parris, escutando os salmos sendo cantados no salão, levanta-se e começa a gritar, dizendo que deseja encontrar sua mãe, morta há vários anos, e Abigail tenta contê-la. Neste momento seu pai, entre várias outras pessoas, entra buscando compreender o que está acontecendo. Algumas dessas pessoas instigam comentários sobre Betty ter sido enfeitiçada. A partir desses comentários iniciais, as conversações tendem a acusações entre Proctor, Parris, Giles Corey e Thomas Putnam, que denotam as disputas, nem sempre lícitas, sobre terras e dinheiro, deixando clara a tensão e a desconfiança reinante na comunidade de Salém. Enquanto os homens discutem, o reverendo Hale, da vizinha cidade de Beverly, chega a pedido de Parris e examina Betty. Neste ínterim Proctor se vai. Hale interroga Abigail sobre a conduta das meninas na floresta, e descobrindo sobre Tituba manda chamá-la. Após um breve interrogatório, sob a ameaça de Parris, temerosa Tituba admite estar a serviço do Diabo e acusa vários cidadãos de Salém de conjurá-lo. A ameaça de bruxaria está estabelecida e vários cidadãos deverão ser interrogados, presos e executados pelo bem da comunidade. Percebendo a oportunidade de vingança, Abigail surpreendentemente se junta à Tituba, e sua ação encoraja Betty e as outras meninas. Esta histeria gerada pelo temor da bruxaria coloca as meninas numa posição de vítimas necessitadas de amparo, e provoca uma revolução na cidade.
         Uma semana mais tarde John Proctor e sua esposa, Elizabeth, conversam sobre os acontecimentos na cidade, distante sete quilômetros de sua fazenda, e surpreendem-se com a rápida corrida dos julgamentos e prisões. O comportamento de sua atual criada – Mary Warren – foi o estopim dessa conversa.



         Elizabeth insta Proctor a denunciar Abigail, acreditando na sua informação de que a moça admitiu ser tudo uma brincadeira. Quando durante a conversa descobre que Proctor recebeu esta confissão de Abigail em um momento em que ficaram sozinhos sua desconfiança se renova e eles discutem. Mary Warren chega da cidade com notícias de que várias outras pessoas foram presas e que Elizabeth foi denunciada. Pouco mais tarde o casal recebe a visita do reverendo Hale, que os questiona sobre sua condição de cristãos. Giles Corey e Francis Nurse chegam assustados à casa de Proctor, com um pedido de ajuda, por suas esposas terem sidos presas, acusadas de bruxaria. Com espanto Proctor os recebe e, logo após, Cheever – um preposto da corte – chega com o delegado Herrick e também prende Elizabeth. Furioso, Proctor exige que Mary Warren o acompanhe ao tribunal e conte toda a verdade. Ele tenta livrar sua esposa insistentemente, sem sucesso. Algum tempo depois Proctor obriga Mary Warren a desmascarar Abigail e as outras meninas, levando-a a presença do juiz Danforth – emissário do governador. Danforth, no entanto, desconfia da postura de Proctor. Revela-lhe a suspeita da gravidez de sua esposa, e caso se confirme, ela estará segura por algum tempo. Proctor, também preocupado e indignado com a prisão de outras pessoas como Martha Corey e Rebecca Nurse – esposas de Giles e Francis – insiste para que Danforth tome o depoimento de Mary. Mary acusa as amigas e Danforth promove a acareação entre elas. Abigail, comandando as outras meninas, acusa Mary de bruxaria e através de subterfúgios e fingimentos consegue virar a acusação e a suspeita contra Mary Warren e John Proctor. Desesperado, sem outra alternativa, Proctor confessa seu envolvimento com Abigail, destruindo seu bom nome para proteger sua esposa, acusando a moça de vingança contra Elizabeth. Com o objetivo de provar a acusação de Proctor, Danforth faz entrar Elizabeth e a inquire sobre a conduta do marido. Entretanto, para proteger sua honra, ela nega que ele a tenha traído com Abigail, e Danforth o acusa de bruxaria. Ao mesmo tempo, Abigail e as meninas, continuando a acusar Mary Warren, a assustam e, sentindo-se acuada, Mary muda de lado novamente, acusando Proctor de envolvimento com o Diabo. Proctor vocifera contra Mary e contra a corte e é preso. Não suportando mais a situação, que para ele é clara, Hale desiste de participar dos julgamentos, identificando como injusta a posição da corte.



         Os acusados ficam presos durante todo o verão, até a entrada do outono. Todo esse movimento de acusações gera medo e histeria em todas as outras cidades vizinhas, como Andover, por exemplo, e Danforth está cada vez mais nervoso. Abigail foge de Salém, levando consigo todo o dinheiro de seu tio. Hale, que já há muito tempo perdeu a fé na corte, implora para as outras meninas confessarem, mas elas se negam e ele se vê na única alternativa de convencer os acusados a se confessarem, mesmo mentindo, para salvarem suas vidas. Danforth convence Elizabeth a falar com Proctor, para que ele confesse. Desejoso de viver, sentindo-se indigno de perecer como um “santo” – como identifica Rebecca Nurse, por exemplo – Proctor confessa. Todavia, ele não admite acusar a ninguém, como os juízes desejavam, e quando percebe que sua confissão, assinada, deverá ser pregada na porta da igreja, fazendo-se pública, ele se desespera e volta atrás, rasga a confissão entre gritos revoltados de: “Vocês já tomaram a minha alma! Deixem-me ficar com meu nome!”. Danforth, presenciando a cena, condena-o à forca junto aos outros acusados e assim ocorre o terrível desfecho dos julgamentos de Salém.


Tema: Sobre o que trata

            Sabemos de antemão que o foco principal objetivado por Arthur Miller quando escreveu este texto foi a crítica à política do senador John McCarthy. Mas é preciso que identifiquemos a questão temática para nossa realidade atual – o que essa peça nos diz, para nosso lugar e momento? Quatro “Temas Universais” me parecem muito claros ao ler esse texto. Esses Temas foram a nossa base de estudo e pesquisa para o Laboratório, que foi a base para a montagem. Identificamos os seguintes Temas:


Manipulação: Como atitudes de algumas pessoas podem movimentar toda uma cadeia de acontecimentos, emoções e juízos, utilizando as conseqüências como uma ferramenta em benefício próprio. Pensamos se este tipo de ação ainda ocorre em nossos dias, e vemos que sim, com muita clareza. Ao lermos os artigos do lingüista americano Noam Chomsky, percebemos quando se diz que “nada é por acaso”. A leitura de seus artigos é uma das fontes de pesquisa desse Tema, realizando um paralelo sobre a realidade sobre a qual ele escreve e a que percebemos rodeando-nos em nosso dia-a-dia. Muito especialmente o artigo: “As dez estratégias de Manipulação” e o documentário “Os Estados Unidos VS John Lennon”, têm nos servido de ferramentas que muito nos instigam durante o processo de observação deste Tema.


Reputação: Outro Tema muito presente nesse texto dado a sede de poder da maioria dos personagens. E essa sede de poder é algo que percebemos também nas circunstâncias políticas atuais, em todas as instâncias. Um dado importante ao qual normalmente não damos muita atenção é a diferença entre Reputação e Caráter. A Reputação é como se é visto pelas pessoas, e o Caráter como se é realmente. Portanto a Reputação depende do olhar do interlocutor – e este, obviamente depende da sua sensibilidade. Quantas vezes temos visto falhas de comunicação por conta deste lapso de percepções. Via de regra sempre haverá uma diferença nessa observação. A experimentação dessa Reputação poderá acender uma discussão e uma análise acerca desse ponto em nossa comunidade.





Intolerância: Quase como uma conseqüência da busca de um poder, da ostentação de uma reputação idealizada, e da exigência de que essa reputação e esse poder sejam respeitados, gera-se a intolerância. É um outro Tema muito presente na nossa sociedade e na forma como ela se estabeleceu, e que vemos a necessidade de discutir. Qual é o ponto de tolerância?


Histeria: Como uma conseqüência da conjunção de vários fatores, do stress cotidiano, das exigências sociais, é uma patologia que a cada dia cresce mais em nossa sociedade. Seja com a característica do mutismo e da depressão, seja com a do desespero e da violência, é um mal que realmente nos assola. E que assolou a Salém de 1692, com o agravante de ser utilizada como uma ferramenta na busca desenfreada de poder em todos os ambientes. Um Tema válido e de importância real para uma discussão de posicionamento social e comportamento.


Significado do Título

         “As Bruxas de Salém” – título da peça no Brasil, remete-nos ao limiar do misticismo, o que, de fato, não reflete exatamente a idéia do texto. A questão da feitiçaria parece-nos, ao estudarmos o texto, uma capa superficial, uma desculpa para que a vingança passional de Abigail seja executada, e para que a ambição e ganância de personagens poderosos sejam saciadas. Aos que têm o primeiro contato com o texto por via do título, pode ser frustrante, em certa medida.
        O título original – “The Crucible” – palavra que infelizmente não tem uma tradução exata na língua portuguesa, é muito mais abrangente. “Crucible” é um tipo de recipiente usado para aquecer substâncias ou derreter metais a uma temperatura muito alta; ou designa um ambiente muito perigoso, difícil ou excitante. Ambos os significados parecem mais ajustados ao que o texto nos remete: o julgamento “derrete” todos os segredos e alcança a todos, e o ambiente causado pela histeria torna-se muito perigoso (“um homem nunca sabe quando o grito de uma prostituta o levará à forca” – reverendo Hale), difícil em saber o que falar ou quando calar, e excitante – ou pelo sexo, ou pelo perigo, ou pela própria histeria.



Asserções filosóficas e ideológicas da peça



Qual a importância de se montar "As Bruxas de Salém" hoje?



          Podemos deslocar esta questão para a visão “Hoje – Lá em 1692”. Pensarmos filosófica e ideologicamente as questões que brotam desse texto, remetendo-nos a comparações entre sistemas de governo, constituição de uma sociedade, regras de conduta comunitárias, dos nossos dias e locais atuais à Massachusetts de 1692. Ainda que se considere que a tecnologia era completamente diferente, os núcleos de comunidades muito menores e também muito mais homogêneos, os objetivos completamente diversos, questões filosóficas como a dicotomia entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo, por exemplo, são inerentes ao ser humano em qualquer lugar ou época. A visão ideológica é mais localizada e específica, mas se observarmos com cuidado, veremos nos dias atuais alguns grupos com padrões semelhantes aos padrões ideológicos idealizados e seguidos na Nova Inglaterra de 1692. Acredito que um exercício digno de atenção seja o de colocarmo-nos ideologicamente, e também filosoficamente, com todas as nossas peculiaridades, nas condições relatadas no texto que trabalharemos. Desta maneira, acredito que será mais coerente a identificação desses pontos de contato, que nos remeterão ao íntimo da alma humana, podendo interpretá-la com mais parcimônia. E esta percepção não é imediata e definitiva. Vamos, com a experimentação, observando-a e descobrindo-a, respondendo aos nossos questionamentos cuidadosamente. Nisto, a meu ver, consiste a importância de se montar “As Bruxas de Salém” hoje. O desvendar dessas peculiaridades inerentes da alma humana, não obstante as diferenças superficiais geridas pelas épocas distintas, para através de posicionamentos tomados sobre os fatos ocorridos “Lá” com a experiência humana do “Hoje”, construirmos uma ponte que nos identifique como seres humanos. Independente da época, pela mesma função do ser, atingir o público por esse viés, transportando-o conosco àquele lugar e àquela época através das emoções humanas e da reflexão: “O que eu faria se fosse comigo?”.


"As Bruxas de Salém" - Um olhar contemporâneo!



           Com esta questão buscamos o caminho inverso da anterior: “Como trazer o Lá (1692) para o Hoje?”. O primeiro caminho funde-se pelo aspecto filosófico com o que citamos acima, como numa via de mão-dupla. A via do ser humano. O outro, um caminho ideológico, nos parece mais espontâneo a esse “Olhar Contemporâneo”. Da ideologia pendemos para as construções e constrições culturais, um olhar mais afeito às disponibilidades tecnológicas de cada época, um sistema de valores e medidas adequados a cada sociedade, enfim, o imaginar como seria a vida dessas personagens se tudo ocorresse nos dias atuais. Como seriam as roupas dos puritanos daquela sociedade, deslocada para a atualidade. Ainda que proibidas as manifestações culturais e artísticas, eram realizadas, então como seria a dança e a música das meninas na floresta – qual o gênero e o ritmo seria mais indicado para evidenciar uma “bruxaria”: uma música romântica, ou talvez um rock! Como se dariam os comportamentos e as demonstrações de afeto, cumplicidade, inveja, ódio, observando os padrões estabelecidos pela estrutura teocrática manietados aos dispositivos atuais? Inúmeras questões se apresentam e nos auferem possibilidades imaginativas muito ricas, que hão de ser cuidadosamente experimentadas. Propostas, a meu ver, para o início de uma busca estética visando “um olhar contemporâneo” para uma montagem acalentada à nossa época.



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