segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

AMOR EM SHAKESPEARE...

por Dani Fusaro

Amar é dar o que não se tem para dar"


"Amar é dar o que não se tem para dar". Assim o amor é definido por Lacan em um de seus Seminários. Essa afirmação nos sugere um paradoxo: como pode alguém dar o que não tem para dar?


Dando simplesmente o que tem - não o que lhe sobra para dar, mas o que tem para si. É sobre renúncia que estamos falando, sacrifício. Então se o amor não é impossível, é no mínimo irreconciliável com a idéia de felicidade vinculada ao amor romântico ou à embriaguez do enamoramento.

A ilusão amorosa, bem como as contradições humanas, são temas recorrentes em Shakespeare. Assim, é bastante significativo que, o que leva Romeo à festa onde conhece Julieta, é o desejo de encontrar Rosaline, pouco depois de ter assegurado ao primo Benvolio que morreria solteiro caso Rosaline se negasse a desposá-lo.

Mais adiante, ele é advertido por padre Lourenço de que apenas amou Rosaline por algumas semanas e que ao se casar com Julieta, teria que amá-la para o resto da vida. E é à própria vida que Romeo terá que renunciar para viver este amor - paradoxalmente.

Em "Muito Barulho Por Nada", Shakespeare nos mostra como o sentimento amoroso é forjado a partir de nosso próprio narcisismo. Trata-se de mais uma contradição confirmada séculos mais tarde pela psicanálise: é à nossa própria imagem refletida no outro que amamos.

Imperfeitos que somos, amamos, cada um à sua maneira, sempre imperfeitamente. O quê dizer sobre o amor de Tróilo e Créssida? A nada renunciam um pelo outro; no prólogo da peça somos informados de que "Helena , mulher de Menelau, dorme com o voluptuoso Páris em Tróia" e que por esse amor - voluptuoso - uma guerra foi deflagrada; e é a poucos instantes de se entregarem ao apelo irresistível dos sentidos, após meses de antecipação e espera, que nossos anti-heróis trocam juras de amor e fidelidade.

Sem uma análise mais aprofundada de cada personagem e das circunstâncias dadas, podemos inferir que, mais uma vez, Shakespeare nos aponta as ilusões e fantasias inerentes ao enamoramento. Desta vez, desvelando o papel primordial desempenhado pelo desejo carnal na constituição do sentimento amoroso ( ou seria mais apropriado dizer "ilusão amorosa"? ), sempre imperfeito e contraditório como todos nós

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Retornando ao Teatro... sempre!

Por Victor Brennand

O post anterior discorreu sobre a questão da ausência de publico no teatro, e a aparente teoria que aponta uma não ausência. Concordo, em partes. Os teatros – de circuito zona sul – não são carentes de publico, muito pelo contrario. Da mesma forma que o circuito cultural de peças a um (1) ``pequenino´´ Real vive cheio – graciosamente pelo mesmo publico zona sul. Pensando assim, realmente não há uma ausência de publico. O que há é ausência de teatro para uma determinada camada de publico – a dita popular.

Não pensem vocês que quando digo `ausência ´ eu me refira àquele teatro que seja portador de uma história simples e direta, sem complicações existenciais, com o bem e o mal definidos. De jeito algum. Pois não acredito que o povão não saiba apreciar uma boa peça teatral – e isso é sem demagogia. O mal perene é crer que o povão entre Chico Buarque e Chiclete com Banana, prefira o segundo achando o primeiro complicado demais. Pode até ser complicado. Mas é da mesma forma acessível, atingindo outras camadas que não as mesmas das mentes cultas e elevadas. Quem somos nós pra dizer que um morador do Complexo do Alemão, por exemplo, não seja capaz de ouvir Chico Buarque – ou até mesmo assistir uma peça de Bernard Marie-koltès?

Minha recente experiência com a peça `O Retorno ao Deserto´ sendo apresentada no complexo do alemão me despertou essa discussão. Talvez o tema não tenha sido devidamente compreendido – afinal a maioria do publico era de pré- adolescentes preocupados com o Ronaldinho Gaúcho no Flamengo. Mas quem me garante que o tema – e a peça – não tenham sido devidamente compreendidos? Que certeza tenho eu que a compreensão da qual acredito seja a única, verdadeira? Espectador é espectador. É ser humano. Será sempre atingido de alguma forma. Somos nós, os profissionais, que subestimam outras camadas de publico afastadas do meio teatral – ou próximo a ele. Não há ausência de publico. Nunca haverá.

A `ausência´ da qual me refiro é a de espaços adequados que recebam peças de diversos gêneros em outros bairros fora eixo Leblon – Gávea. Não há credibilidade do serviço de cultura para esse publico. Pra quê teatro, se esse publico não vai assistir, nem ao menos vai entender? Engano. Na minha concepção, gosto se constrói. Não nascemos gostando de Beethoven ou Shakespeare. Passamos a conhecer, entender e a gostar. Questão de habito, de convívio. Pra passar a gostar é preciso conhecer antes de tudo. Obvio.

Negar isso a qualquer publico é ignorância.

Fiquei muito feliz com a apresentação no Complexo do Alemão de uma peça da qual felizmente tive o prazer de dirigir, e ainda mais, com a reação dos pré-adolescentes. Eles estavam presentes, atentos, loucos para embarcarem naquela fantasia criada por Bernard-Marie koltès – um fulano do qual eles nunca tinham ouvido falar, até então.