domingo, 25 de abril de 2010

O Guerreiro

Por Victor Brennand


Um guerreiro sempre consegue equilibrar rigor e misericórdia. Para atingir seu sonho precisa de uma vontade firme – e de uma imensa capacidade de entrega. Embora tenha um objetivo, nem sempre o caminho para atingi-lo é aquele que imagina: por isso, o guerreiro usa a disciplina e a compaixão.
Ele não está sentado no conforto de sua tenda, observando o que acontece no mundo, mas aceitando casa desafio como uma oportunidade para transformar a si mesmo. O guerreiro transforma seu pensamento em ação. Algumas vezes ele erra e paga – sem reclamar – o preço de seu erro. Outras vezes desvia-se do caminho e perde muito tempo voltando ao destino original. Mas um guerreiro não se distrai porque sabe o que está procurando.
Um guerreiro não adia suas decisões. Ele reflete bastante antes de agir. Procura manter a serenidade e analisa cada passo como se fosse o mais importante. Entretanto, no momento que toma uma decisão, o guerreiro segue adiante: não tem mais dúvidas sobre o que escolheu, nem muda o percurso se as circunstâncias forem diferentes do que imaginava. Tudo o que faz é adaptar-se ao caminho, às vezes agindo com a solidez de uma rocha, às vezes deixando-se levar como as águas de um rio que sabe aonde vai.
Se sua decisão foi correta, vencerá o combate – mesmo que dure o mais que o previsto. Se sua decisão foi errada, ele será derrotado, e terá que recomeçar tudo de novo – com mais sabedoria. Mas um guerreiro quando começa, vai até o fim.
Um guerreiro quando está em terreno plano e tudo à sua volta encontra-se em harmonia, ele se mantém estável. Quando, porem, o colocam em terreno inclinado, e nada à sua volta demonstra qualquer respeito e equilíbrio por seu trabalho, ele revela sua força, rolando em direção ao inimigo que ameaça sua escolha. Sem crueldade, mas com decisão, um guerreiro não se deixa paralisar por seus adversários.
Hoje em dia, essas características podem ser facilmente veiculadas a um artista de teatro no Brasil. Enfrentar as adversidades e trombadas que perduram no nosso teatro é realmente um combate, onde os fortes sempre vencem – e nem sempre o forte é aquele austero, arrogante e intransigente.
Um bom guerreiro pensa no bom combate e na paz ao mesmo tempo e sabe agir de acordo com as circunstancias.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Ondas no Lago

por Rogério Rasées

Tudo em nossa vida, do maior conjunto ao menor detalhe, age e reage ao que nos cerca. É ingenuidade acreditar que mesmo nos omitindo estaremos imunes a esses abalos. Dentro do campo artístico, muito especialmente, nossas ações gerarão reações que nos afetarão diretamente, e essas ondas de conseqüências não se diluem com facilidade, para pacificá-las precisamos nos esforçar por controlarmos a nós mesmos, e por modificarmos com cuidado o que nos cerca.
            Houve um momento na história do nosso país, não muito distante, em que a censura e a crítica atingiram níveis inadmissíveis. As artes, nesse período, desempenharam um papel fundamental na luta contra os abusos, bem como no alívio de seus resultados, e essa luta ficou marcada a ferro e fogo, com fotografias, vídeos e relatos, nos discos, nos livros, e em vários processos que se esforçaram por manter viva essa lembrança, para que não a deixemos repetir. Há, entretanto, algo a considerarmos. A política mudou com os tempos. Era um período onde a ditadura exigia uma atitude quase guerrilheira das artes, e as militâncias políticas sobejavam. A opressão era demasiada, o governo assassinava pessoas que não o aceitavam, outros fugiam pedindo asilo político em outros países, e isso marcou muito as pessoas que viveram aquele período, tanto que muitas delas congelaram nessa atitude. Atualmente esse tipo de governo e necessidades não existem mais. São outras necessidades. Estamos muito distante do mínimo ideal, mas não há como negar que, de certa forma, as coisas melhoraram. A censura não veta obras artísticas, como outrora, e a arte politicamente militante não é justificável pelos mesmos prismas. Evidentemente a arte e a política estarão sempre ligadas, a certa medida, com maior ou menor intensidade. Mas buscar manter, ainda hoje, a mesma postura daquela época é, no mínimo, insensatez. Os consumidores do mercado cultural e artístico não são mais os mesmos, ou, pelo menos, não têm mais as mesmas necessidades. Toco nesse assunto, admito, como um desabafo. Estudo artes, e estudarei até morrer, e sofri uma crítica ferina por não querer dar esse cunho político, a meu ver injustificável, a uma obra que estou trabalhando. E essa crítica, quase em tom agressivo e ofensivo, veio diretamente da pessoa designada para ser o meu orientador nesse processo. Chegou-me com a frase final: “Desculpe a franqueza, mas acho que orientar é isso!”. E eu digo, a meu turno, que ele deveria saber o que é orientar e não achar, afinal é o trabalho dele. E ainda mais; a franqueza, muitas vezes é uma máscara da vileza. Não considero correto usar as palavras que quiser, no tom que bem entender, chegando a faltar com o respeito com as pessoas, e depois desculpar-se sob a máscara da franqueza.
            Acredito que a função de orientar seja a de instruir, indicar o que deve ser feito, como deve ser feito e porque, corrigir, criticar – SIM – construtivamente, e também incentivar. A crítica que recebi nesse processo serviu apenas para me desmotivar. E por esse orientador, devo confessar, tenho, hoje, noventa por cento menos respeito e nenhuma admiração. Mais uma decepção que absorverei, e trabalhando sob sua égide, ou “deségide” (permitindo-me inventar um novo termo), lutarei por aproveitar o que de melhor ele terá para me oferecer e descartarei suas críticas amargas. A crítica é essencial, sem ela não temos como nos melhorarmos; se nos postarmos avessos às críticas, “protegendo-nos com a armadura do orgulho e empunhando a espada do egoísmo”, não evoluiremos. Mas a crítica deve ser uma ferramenta para que se melhorem as coisas, deve ser, repito, construtiva; quando o que temos visto e vivenciado são críticas simplesmente destrutivas. Será esse um mal, nessa cidade do Rio de Janeiro? Acho preciso conscientizarmo-nos disso. Por vezes a crítica construtiva também nos incomodará, porque ferirá nosso orgulho – e digo isso por mim – mas nesse caso é um problema de foro íntimo. O problema é quando a crítica é preconceituosa, tendenciosa, e mesmo, como temos visto muito ultimamente, malévola. Precisamos ter a atitude política de lutarmos contra isso; e como foi atitude política que meu orientador me cobrou, digo-lhe: “Aqui tens minha resposta, publicada após ter-te informada. Desculpe a franqueza, mas tenho certeza que você não sabe o que é orientar!” Essa é minha maneira política de lutar: recebi uma nova pedrada, e ela provocou ondas no lago.