quarta-feira, 10 de novembro de 2010

As pessoas não vão ao Teatro.

Por Guedes
                                                                               Questiono-me sempre quando o assunto é “as pessoas não vão ao teatro” ou até mesmo “teatro não dá lucro”. É um paradoxo. Nos dois últimos meses... Ou melhor, as dez últimas peças que fui assistir observei as platéias com curiosidade para ver se os tais bordões que cercam o Teatro eram de fato fundados. Não eram. Tive a oportunidade de ver desde as peças que cobram R$ 1 (programa teatro R$ 1 todo segundo domingo de cada mês, teatros com administração pública da cidade do Rio de Janeiro) até os que cobram bem mais que isso (as ditas grandes produções) e em nenhum dos casos as casas estavam vazias, não, pelo contrário, muitas das vezes faltam lugares e sobram pessoas do lado de fora, assim, não consigo visualizar esse discurso que as pessoas não vão ao teatro, pois elas vão. Quanto ao lucro não sei nas mãos de quem vai parar (ou até sei) o fato é que é um negócio rentável sim caso contrário as empresas e seus empresários não estariam cada vez mais ligados e associando-se a esta empreitada. Criemos então um novo conceito para apontar o teatro que não seja os tão surrados que não dizem mais nada, que não significam e que na prática de fato provam o contrário. AH! Perdão por não ter me apresentado, quem sabe um dia o faço.

Guedes
Forte abraço.
Paz, sempre...













quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Procusto Entronizado

por Rogério Rasées


“Da  serra  de  Elêusis  ao  Monte  Olimpo”


A arte, o fazer artístico e o artista em sua busca, como o próprio ser humano que é...
Quem desejar faça a analogia: ainda que pareça improvável sinto-a entre a arte e a humanidade...

            As mitologias de todos os povos nos trazem sérias reflexões acerca de inúmeros posicionamentos pessoais, sociais e culturais. Em cada uma delas as sociedades que as cultivaram estabeleceram seus mitos – deuses, gênios, gigantes, espectros, seres de toda ordem, enfim – como signos que remetiam ou representavam forças da natureza, abstrações mal compreendidas, qualidades inerentes aos homens e aos deuses. De todas estas mitologias, a que nos chegou com mais força e completude foi a Mitologia Grega, em muito graças aos registros dos filósofos, historiadores e poetas como Platão, Heródoto, Homero, Ésquilo, Eurípedes e Sófocles.
Atendo-nos à Mitologia Grega, estudando-a, percebemos que ela segue uma determinada ordem cronológica, engendrando em sua teia todas as suas personagens, com maior ou menor grau de envolvimento e repercussão entre elas, situações onde podemos perceber o mecanismo de causa e efeito nas menores como nas maiores coisas, intimamente dependente da vontade – em geral dos deuses e semideuses.  Objetivamente focalizaremos uma destas personagens, neste breve artigo, que podemos sem temor considerar um signo de intolerância, chamado Procusto. Também conhecido como "Procrustes", "Damastes"  ou  "Polipémon"  é uma personagem que faz parte da história de Teseu. Procrusto era um bandido que vivia na serra de Elêusis. Ele era o “dono” daquela escura floresta e assaltava todos os viajantes que passavam por seus domínios. Entretanto não se contentava em assaltá-los, as vítimas eram obrigadas a tornarem-se seus hóspedes por uma noite. Em sua casa, ele tinha uma cama de ferro, que tinha seu exato tamanho, para a qual convidava todos os viajantes para se deitarem, e caso o hóspede tivesse a sorte de possuir o exato tamanho da cama poderia ir embora na manhã seguinte ileso, obviamente sem os seus pertences. Mas se os hóspedes fossem demasiado altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os que tinham pequena estatura, eram esticados até atingirem o comprimento exato. Ninguém sobrevivia, pois nunca uma vítima se ajustava exatamente ao tamanho da cama. Continuou seu reinado de terror até que foi capturado pelo herói ateniense Teseu que, em sua última aventura, prendeu Procusto lateralmente em sua própria cama e cortou-lhe a cabeça e os pés, aplicando-lhe o mesmo suplício que infligia aos seus hóspedes.
O mito já foi usado como metáfora para criticar tentativas de imposição de um padrão em várias áreas do conhecimento, como na economia, na política, na educação, na história, na ciência e na administração. Procrusto representa a intolerância do homem em relação ao seu semelhante. E podemos ainda considerar que muitos homens, ainda nos dias de hoje, têm um “Procusto Entronizado” na própria personalidade. Como Procusto, perdem-se nos domínios de suas mentes como se estes fossem a própria serra de Elêusis, como se os sulcos de seus cérebros fossem as trilhas da floresta negra. E no recôndito desta floresta ele guarda a sua cama – numa medida que se perde entre a sua reputação e seu caráter – algo que significa exatamente o que este “Procusto” é aos seus próprios olhos viciados, e não admitindo que outras personalidades desrespeitem o gabarito de sua própria mediocridade, irrompe num impulso de correção violenta deste equívoco, transbordando toda a sua intolerância.
O mais triste, contudo, é a sua condição cega de imutabilidade, onde por incontáveis e consecutivas vezes encontra-se com o “Teseu” (talvez possamos assim rebatizar o destino – ou seja – as coisas que não se podem mudar na vida)  que, sendo mais forte e inevitável, corrige-o aplicando-lhe a pena dentro dos padrões por ele mesmo estipulados. E pena esta que deverá ser aplicada inúmeras vezes dado à condição de ampla ductilidade e resiliência da mente humana, até que sua visão, sanada a debilidade, reconheça a ele próprio – Procusto – necessitado de correção. Até este momento, a ordem de seu dia será a Intolerância.
Uma  atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar diferenças em crenças e opiniões. Num sentido político e social, é a ausência de disposição e/ou interesse para aceitar pessoas com pontos-de-vista diferentes. Como um constructo social, isto está aberto à interpretação. Uns podem defender que a intolerância é uma atitude tomada de maneira negativa ou hostil, em relação às opiniões alheias, não importando o grau de reação a estas opiniões. Pode estar baseada no preconceito, chegando mesmo à discriminação. Comumente ações como racismo, homofobia, etaísmo, segregação de todos os matizes como política e religiosa, são exteriorizações de um processo de intolerância que pode chegar à violência física, e até ao genocídio.
Na época dos descobrimentos o movimento colonialista foi baseado em parte, no egoísmo, na ganância e na falta de tolerância para com culturas diferentes. A forma como cada cultura tratou politicamente esta questão foi diretamente proporcional ao seu nível de tolerância. No Brasil colonial, por exemplo, podemos refletir se o nível de tolerância dos negros, trazidos como escravos da África, foi muito maior que o dos nativos sul-americanos; ou se a tolerância dos europeus colonizadores, por uma série de fatores, foi maior com os negros do que com os índios. De qualquer forma acabaremos sempre neste embate, que de sua parte será sempre controverso. A questão crucial, a meu ver, é portanto: Como sermos maleáveis ao ponto de caber na cama de todos os “Procustos” que encontraremos em nosso caminho, e como deixarmos de ser “Procustos” construindo camas de todos os tamanhos em nossas mentes para abrigar pessoas de todos os “tamanhos”? Talvez seja verdadeiramente um exercício lento, mas absolutamente necessário para que nós mesmos possamos ter melhor qualidade de vida – considerando nossa condição de seres socializáveis –, uma caminhada entre dois pólos da inconsciência: da ignorância inconsciente à sabedoria inconsciente. Do egoísmo e da intolerância do Procusto, em sua ignorância inconsciente (onde agimos mal sem que tenhamos percepção disto), passando pela ignorância consciente (onde agimos mal percebendo o que estamos fazendo), daí à sabedoria consciente (onde buscamos agir de forma correta, esforçando-nos para isso conscientemente), até chegarmos à sabedoria inconsciente (onde agimos com benevolência sem que precisemos nos preocupar ou nos esforçar para realizarmos este movimento, por já o termos apreendido). Este caminho da transformação de egoísmo em altruísmo, de intolerância em compreensão, talvez seja o caminho que cada um deverá encontrar a seu tempo, fugindo da serra de Elêusis de seu cérebro para o Monte Olimpo de seu coração.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Entre a Tragédia e a Comédia

Um Ator sem Face às Margens do Rio
Por Rogério Rasées

                Um ator se prepara na coxia. Maquila-se para a vida. Decora seus papéis e os leva consigo ao próximo guichê de banco – contas a pagar. Aquece o corpo caminhando pelas ruas, a voz persistente buscando patrocínios, quase sempre em vão; não... sempre em vão. Quem patrocina um ator sem face? Sem face permanece às margens do Rio de Janeiro...
Anda pelas ruas olhando o chão à busca de centavos de chances que talvez alguém tenha perdido, olhando à frente nos estudos e preparações para o seu ofício, ainda que tão difícil, olhando para o céu, implorando que em algum momento, por entre as nuvens, quem sabe na direção do Corcovado, surja um Deus Ex-Machina que solucione e finalize sua tragédia...
Quando olha para os lados, percebe-se acompanhado de uma plêiade de “desfacetados” com seus olhos maquiados e borrados como os de velhos palhaços após o espetáculo. Uma multidão de solitários. E as pessoas “normais” os olham, ora com crítica, ora com pena, mas ele gostaria de saber quantos desses “normais” sentem um décimo do seu prazer e alegria quando estão jogando no palco, ou fazendo jogar... Ainda que, na maior parte das vezes, sentindo-se miseráveis, como o vagabundo de Chaplin ou Estragon de Beckett...
Enquanto anda pelas ruas, olha os out-doors, bus-doors, letreiros em sinais e em bancas de jornais, e vê que para uns poucos, alguns nem tão bons assim, a boa fortuna da comédia se apresenta em toda a sua pujança. E sonha em encontrar e conquistar a prima mais humilde dessa comédia, em suas andanças, virando alguma esquina desavisada. Não chega nem a sonhar com a mais bela das comédias... quer apenas um casamento amoroso, que lhe possibilite alimentar suas filhas – criações artísticas – com o sorriso dessa humilde prima; não exige gargalhadas. Vive pelo amor, não se perde pela paixão. Mas ainda não... O Deus Ex-Machina ainda não surgiu, talvez ainda exista uma nova canção em sua tragédia, talvez para esse ator sem face ainda falte também perder os olhos, como Édipo... E, às vezes chora, unindo-se ao coro... Coro de quebrar pedras, de lavar pratos, de servir mesas, de recepcionar em hotéis, de um sem número de incógnitas, incógnito, tragicamente diluído na falta de cor dessa multidão, buscando o que acha por sobra na falta de opção...
Mas não se entrega. Não por burrice ou teimosia; repete sem cessar: “por AMOR”! E por amor não se fixa nem na tragédia, nem na comédia. A dramaturgia que o acolhe é a ordem das circunstâncias de sua própria vida. E de seus sonhos tece poesias, como Friga tecendo nuvens... Um drama, talvez como o proposto por Diderot: com o público ignorado. Ou sonhando ter um público, para que possa sonhar em ignorá-lo; e isso defender como se discutisse consigo mesmo, tal qual Diderot e Dorval... Um drama dos seus dias e do seu lugar; um lugar seu por força de nele se encontrar, e nada mais...
E esse é o Drama Contemporâneo que este e tantos outros atores sem face interpretam, sempre às margens do Rio, de Janeiro a Dezembro, afogados em esperanças quase naufragadas, e quase náufragos felizes por, como amadores, amarem a dor de viverem seus Dramas Contemporâneos, da forma mais teatral possível. Ali ficam e se esmeram na tentativa de pescar oportunidades, olhos marejados, uma lágrima no olho esquerdo – desespero; outra lágrima no olho direito – trabalho; entre a tragédia e a comédia, às margens do Rio... esperando por Deus... às margens do Rio... às margens do Rio...

domingo, 25 de abril de 2010

O Guerreiro

Por Victor Brennand


Um guerreiro sempre consegue equilibrar rigor e misericórdia. Para atingir seu sonho precisa de uma vontade firme – e de uma imensa capacidade de entrega. Embora tenha um objetivo, nem sempre o caminho para atingi-lo é aquele que imagina: por isso, o guerreiro usa a disciplina e a compaixão.
Ele não está sentado no conforto de sua tenda, observando o que acontece no mundo, mas aceitando casa desafio como uma oportunidade para transformar a si mesmo. O guerreiro transforma seu pensamento em ação. Algumas vezes ele erra e paga – sem reclamar – o preço de seu erro. Outras vezes desvia-se do caminho e perde muito tempo voltando ao destino original. Mas um guerreiro não se distrai porque sabe o que está procurando.
Um guerreiro não adia suas decisões. Ele reflete bastante antes de agir. Procura manter a serenidade e analisa cada passo como se fosse o mais importante. Entretanto, no momento que toma uma decisão, o guerreiro segue adiante: não tem mais dúvidas sobre o que escolheu, nem muda o percurso se as circunstâncias forem diferentes do que imaginava. Tudo o que faz é adaptar-se ao caminho, às vezes agindo com a solidez de uma rocha, às vezes deixando-se levar como as águas de um rio que sabe aonde vai.
Se sua decisão foi correta, vencerá o combate – mesmo que dure o mais que o previsto. Se sua decisão foi errada, ele será derrotado, e terá que recomeçar tudo de novo – com mais sabedoria. Mas um guerreiro quando começa, vai até o fim.
Um guerreiro quando está em terreno plano e tudo à sua volta encontra-se em harmonia, ele se mantém estável. Quando, porem, o colocam em terreno inclinado, e nada à sua volta demonstra qualquer respeito e equilíbrio por seu trabalho, ele revela sua força, rolando em direção ao inimigo que ameaça sua escolha. Sem crueldade, mas com decisão, um guerreiro não se deixa paralisar por seus adversários.
Hoje em dia, essas características podem ser facilmente veiculadas a um artista de teatro no Brasil. Enfrentar as adversidades e trombadas que perduram no nosso teatro é realmente um combate, onde os fortes sempre vencem – e nem sempre o forte é aquele austero, arrogante e intransigente.
Um bom guerreiro pensa no bom combate e na paz ao mesmo tempo e sabe agir de acordo com as circunstancias.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Ondas no Lago

por Rogério Rasées

Tudo em nossa vida, do maior conjunto ao menor detalhe, age e reage ao que nos cerca. É ingenuidade acreditar que mesmo nos omitindo estaremos imunes a esses abalos. Dentro do campo artístico, muito especialmente, nossas ações gerarão reações que nos afetarão diretamente, e essas ondas de conseqüências não se diluem com facilidade, para pacificá-las precisamos nos esforçar por controlarmos a nós mesmos, e por modificarmos com cuidado o que nos cerca.
            Houve um momento na história do nosso país, não muito distante, em que a censura e a crítica atingiram níveis inadmissíveis. As artes, nesse período, desempenharam um papel fundamental na luta contra os abusos, bem como no alívio de seus resultados, e essa luta ficou marcada a ferro e fogo, com fotografias, vídeos e relatos, nos discos, nos livros, e em vários processos que se esforçaram por manter viva essa lembrança, para que não a deixemos repetir. Há, entretanto, algo a considerarmos. A política mudou com os tempos. Era um período onde a ditadura exigia uma atitude quase guerrilheira das artes, e as militâncias políticas sobejavam. A opressão era demasiada, o governo assassinava pessoas que não o aceitavam, outros fugiam pedindo asilo político em outros países, e isso marcou muito as pessoas que viveram aquele período, tanto que muitas delas congelaram nessa atitude. Atualmente esse tipo de governo e necessidades não existem mais. São outras necessidades. Estamos muito distante do mínimo ideal, mas não há como negar que, de certa forma, as coisas melhoraram. A censura não veta obras artísticas, como outrora, e a arte politicamente militante não é justificável pelos mesmos prismas. Evidentemente a arte e a política estarão sempre ligadas, a certa medida, com maior ou menor intensidade. Mas buscar manter, ainda hoje, a mesma postura daquela época é, no mínimo, insensatez. Os consumidores do mercado cultural e artístico não são mais os mesmos, ou, pelo menos, não têm mais as mesmas necessidades. Toco nesse assunto, admito, como um desabafo. Estudo artes, e estudarei até morrer, e sofri uma crítica ferina por não querer dar esse cunho político, a meu ver injustificável, a uma obra que estou trabalhando. E essa crítica, quase em tom agressivo e ofensivo, veio diretamente da pessoa designada para ser o meu orientador nesse processo. Chegou-me com a frase final: “Desculpe a franqueza, mas acho que orientar é isso!”. E eu digo, a meu turno, que ele deveria saber o que é orientar e não achar, afinal é o trabalho dele. E ainda mais; a franqueza, muitas vezes é uma máscara da vileza. Não considero correto usar as palavras que quiser, no tom que bem entender, chegando a faltar com o respeito com as pessoas, e depois desculpar-se sob a máscara da franqueza.
            Acredito que a função de orientar seja a de instruir, indicar o que deve ser feito, como deve ser feito e porque, corrigir, criticar – SIM – construtivamente, e também incentivar. A crítica que recebi nesse processo serviu apenas para me desmotivar. E por esse orientador, devo confessar, tenho, hoje, noventa por cento menos respeito e nenhuma admiração. Mais uma decepção que absorverei, e trabalhando sob sua égide, ou “deségide” (permitindo-me inventar um novo termo), lutarei por aproveitar o que de melhor ele terá para me oferecer e descartarei suas críticas amargas. A crítica é essencial, sem ela não temos como nos melhorarmos; se nos postarmos avessos às críticas, “protegendo-nos com a armadura do orgulho e empunhando a espada do egoísmo”, não evoluiremos. Mas a crítica deve ser uma ferramenta para que se melhorem as coisas, deve ser, repito, construtiva; quando o que temos visto e vivenciado são críticas simplesmente destrutivas. Será esse um mal, nessa cidade do Rio de Janeiro? Acho preciso conscientizarmo-nos disso. Por vezes a crítica construtiva também nos incomodará, porque ferirá nosso orgulho – e digo isso por mim – mas nesse caso é um problema de foro íntimo. O problema é quando a crítica é preconceituosa, tendenciosa, e mesmo, como temos visto muito ultimamente, malévola. Precisamos ter a atitude política de lutarmos contra isso; e como foi atitude política que meu orientador me cobrou, digo-lhe: “Aqui tens minha resposta, publicada após ter-te informada. Desculpe a franqueza, mas tenho certeza que você não sabe o que é orientar!” Essa é minha maneira política de lutar: recebi uma nova pedrada, e ela provocou ondas no lago.

sábado, 6 de março de 2010

A Responsabilidade Artística

por Rogério Rasées

           Na madrugada de 17 ou 18 de agosto de 1936 foi assassinado o poeta e dramaturgo Federico Garcia Lorca, em Granada – Espanha, terra natal de sua mãe, como uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola. Justifica-se oficialmente seu assassinato alegando seu alinhamento político com a República Espanhola e pelo fato de haver sido abertamente homossexual. Mas será que esses foram os motivos reais? Ao observarmos outras ditaduras, nas mais diversas regiões do planeta, percebemos que uma das primeiras atitudes é o cerceamento, censura e até mesmo eliminação de artistas em geral, especialmente os que trabalham com a palavra, como atores, dramaturgos, músicos e poetas. Durante o regime de Saddan Hussein, no Iraque, foram proibidos todos os encontros de poetas, todos os saraus, e as edições literárias corriam sob pesada censura. Mas que motivo tão sério poderia haver para que esses regimes se preocupem tanto com a arte?
                Possivelmente essa preocupação tem origem na percepção de que o artista tem a sensibilidade de retratar o mundo ao seu redor, bem como a de atingir os sentimentos e pensamentos do seu público. E justamente esse poder, aliado a um senso crítico apurado, pode se tornar uma ferramenta absolutamente perigosa se utilizada contra o regime, assim como, pelo mesmo motivo, torna-se uma arma poderosa quando controlada pelos poderosos, como fez Stalin, para citar apenas um exemplo.
               Muito se fala sobre a responsabilidade funcional de profissões como a engenharia, a medicina e o direito. Generaliza-se a idéia de que a cultura e a arte, nas suas mais diversas manifestações, observadas sob o status de profissões, sejam menos imputáveis de responsabilidade que as primeiras: “São voltadas à diversão e ao lazer” – dizem. Atrevo-me, todavia, a refletir sob um ponto de vista que transcende o material. Sim, um engenheiro, caso não calcule perfeitamente as estruturas, poderá causar grande catástrofe e ocasionar o óbito de inúmeras pessoas; um advogado, por falta de perícia, poderá levar um inocente ao cárcere ou livrar do cárcere àquele que deveria ocupá-lo; um médico poderá perder a vida de um paciente, caso não esteja bem preparado para seu ofício. O artista, entretanto, alcança o cerne da vida do ser humano – seu coração, suas emoções, seu espírito. Há, ainda, outro aspecto importante a ser considerado: a popularidade do artista. Há 30 anos dois álbuns clássicos da banda Judas Priest, “Stained Class” e “Hell Bent For Leather” (ou “Killing Machine”, dependendo do país), causaram o envolvimento do Priest com os tribunais da América. A temática de algumas letras de "Stained Class" privilegiava as metáforas, a ficção científica ("White Heat, Red Hot") e até seres extraterrestres, caso de "Invaders". Supostamente, algumas mensagens de liberdade e esperança – segundo a banda – foram entendidas de outra forma e foram usadas contra o Priest, acusado de incitar dois jovens americanos que cometeram suicídio em 1985. As famílias de Raymond Belknap (que faleceu na hora) e James Vance (morto três anos depois quando estava internado em uma clínica por causa de depressão) decidiram culpar o Priest pela tragédia, pois consideravam que "mensagens implícitas" de "Do It" (faça isso) em "Better By You, Better Than Me" e outras "diretas" contidas nas letras de "Heroes End" e "Beyond The Realms Of Death" incitavam jovens ao suicídio e que os jovens atiraram contra si por causa da destas "mensagens". 
             Evidentemente não podemos atribuir o suicídio dos fãs à banda, mas certamente algum grau de responsabilidade lhe caberá. Sinto, portanto, uma extrema necessidade de pensarmos, como artistas, na responsabilidade do trabalho que realizamos. Como reagiria alguém que, já vitimado pela depressão e desequilibrado, assistisse-nos em um trabalho que incitasse, por exemplo, ao suicídio? Não quero, com isso, inaugurar uma cruzada ética e moral na arte, desejo apenas abrir um novo ponto de raciocínio e consideração, que nos permita fortalecer, aprimorar e enriquecer nosso fazer artístico, engrandecer e formar nossa consciência e cultura, que sinto, cada vez mais, degradada pela falta de responsabilidade e de auto-respeito com que alguns poucos dentre nós tratam o que vemos como sagrado – a arte. Continuemos a encenar MacBeth e Um Inimigo do Povo, Calígula ou Medéia, mas busquemos manter o bom-senso. Que percebamos, de uma vez por todas, a força da nossa arte na transformação da nossa própria vida, na transformação da sociedade da qual fazemos parte e participemos efetivamente. E que com nossa arte tenhamos responsabilidade para merecermos liberdade sempre!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Observações sobre "Jogo de Cena" de Eduardo Coutinho

por Rogério Rasées




               O filme “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho, mostra-se exatamente como seu título. Apresenta algumas personagens – que são pessoas reais – com suas histórias reais, e atrizes que interpretam essas personagens, não sem um certo jogo de cena do diretor. Dentre essas atrizes algumas são extremamente conhecidas, famosas, outras nem tanto, e há ainda atrizes que muito poucas pessoas reconhecem, e isso nos possibilita observarmos os matizes e dificuldades de interpretação das personagens. Essas dificuldades se apresentam em diferentes escalas, desde a essência do trabalho da atriz durante a “solidão” do ensaio e a diferença de apresentá-lo – seja a um público de teatro ou a uma câmera – , até à questão do aprofundamento desse trabalho de construção no que concerne ao que a atriz/ator alcançou nesta construção em contrapartida ao que poderia ter alcançado. Observando as personagens identificamos que, ao contar suas histórias, há uma carga de emoção e de experiência de vida que, à atriz que desenvolve um trabalho de construção dessa personagem sem a intimidade desses fatores torna-se quase impossível. Essa questão traz-nos a reflexão a respeito dessa experiência de vida. O que representa essa experiência? A idade? Os diversos acontecimentos que se viveu? Acredito que sim, mas, para muito além disso, acredito que o que se apreendeu do que se viveu é o mais importante. Afinal do que adiantaria alguém ter vivido oitenta anos, através dos quais tenha visitado todos os lugares desse planeta e conversado com todas as pessoas, se durante todo esse percurso não parou para se perguntar sobre como tudo isso lhe poderia ser útil, mantendo sempre uma postura egoísta e egocêntrica? De fato, mostra-nos a vida muito maior que a arte que a ela é indispensável.
            É esse filme uma obra excelente para estudarmos o ator, a interpretação, e todas as questões que poderiam se tornar um livro, uma tese a ser defendida, se discutida. Não temos essa pretensão. Apenas anotarmos os pontos que nos chamaram mais a atenção. Situações todas, a despeito de sua diversidade, que refletem num único ponto final – o trabalho do ator. Já comentamos sobre as experiências de vida, o que abrange definitivamente a vida dessas pessoas-personagens, mas dentro disso podemos dizer de pontos mais detalhados. A crença, por exemplo. A atriz Andréa Beltrão relata-nos a extrema dificuldade que sentiu em manter a serenidade que a personagem apresentou ao contar sua história, conferindo essa serenidade à condição de crença espiritual da personagem, estranha a ela, Andréa Beltrão, atriz e descrente. Fernanda Torres relata, a respeito de religiosidade, sobre o candomblé e da experiência vivida, por ela própria ou pela personagem – não fica claro, como é o mote principal de todo o filme – o que para essa observação é indiferente. Em suas palavras: “O Candomblé é Freud na prática!”. Não temos que concordar ou discordar, não é um julgamento de valor ou verdade, é apenas uma observação da importância de, como atores e diretores, como artistas enfim, considerarmos a questão da crença. Outras personagens falam de sonhos proféticos, e utilizo essa palavra sem qualquer intenção mística ou fantástica, mas como se essa profecia revelada nos sonhos fossem avisos ou acordos realizados entre os que estão de um lado e de outro da vida, orientados para um bem comum, com utilidade definida. E são como visões que movem, impulsionam e alentam essas personagens, visões que, não obstante a crítica dos incrédulos, formam-lhes a experiência de vida da qual já falamos acima. E uma vida que, independente da religião, toma outros matizes, como um mundo de várias dimensões, pelas quais se pode transitar desde que observadas certas considerações e ambiências especiais. E não seria o teatro, de certa forma, uma outra dimensão da vida, com suas considerações e ambiências especiais para que por ele transitemos? Particularmente gosto de acreditar que sim.
O Jogo – essa brincadeira de vestirmos uma personagem, o Rito – as questões de valor espiritual e religioso, as crenças, geram uma teatralidade na própria vida. A vida é teatral. Representamos desde o momento que nascemos, quando, por exemplo, choramos porque percebemos que assim recebemos mais atenção, da qual necessitamos, do que nos alimentamos, como nos alimentamos de aplausos num teatro – considerando sem pieguice ou falsa modéstia. A diferença, a meu ver, é no objetivo desse jogo e nas circunstâncias que o compõem. No teatro expomos, temos o objetivo de mostrar, mostrar a bem-vinda lágrima, como comentou Marília Pêra, enquanto na vida essa lágrima, via de regra, ficou marcada como um sinal de fraqueza, e a fraqueza tentamos esconder. “Homem não chora!” – tornou-se um jargão muito utilizado durante muito tempo. A família, sua constituição e manutenção, os relacionamentos familiares em especial, as posturas e oportunidades, todos são fatores componentes desse ator, ou atriz, que desenhando sua personagem podem utilizá-los como ferramentas para um trabalho mais denso e convincente. Mas a partir dessa afirmação corre uma outra questão: como julgar o grau de convencimento – qualidade – do trabalho de um ator? Podemos dizer que as atrizes do Jogo de Cena, foram “piores” que suas personagens? Se considerarmos que as pessoas têm personalidades diferentes, e se admitirmos que o ator não tem de ser a personagem mas, a seu turno, viver as circunstâncias da vida da personagem, dentro desta outra dimensão que é o teatro, como ele as viveria se ele, na “vida real”, passasse por elas, que juízo de valor poderemos fazer que vá além da técnica de representação?
Parece-nos esse filme um pedido de personagens. Como Pirandello escreveu “Seis personagens à procura de um autor”, aqui também temos “algumas personagens à procura de um ator”, e uma questão para refletirmos: Será que o autor que as personagens de Pirandello encontraram, ou não, seria melhor do que Deus – autor da “vida real”, pelo menos para a maioria de nós? E se Deus está em toda parte, será que essas personagens não o encontraram pelas mãos de Pirandello? Será que as personagens de Jogo de Cena encontraram atrizes melhores que elas próprias, ou foi como um jogo de cena, ao verem-se de fora, assistindo a uma atriz, na sua dimensão da vida, vivendo sob sua perspectiva o que elas, personagens, viveram outrora, com sua própria e inigualável constituição como seres humanos?
       As personagens de Jogo de Cena parecem entrar, invadir o palco onde se filma na tentativa de convencer o diretor a mostrar suas histórias, como as personagens de Pirandello invadem o palco tentando convencer o diretor a encenar suas vidas. Com todas as suas implicações a ação da peça de Pirandello torna-se, digamos, um estudo metalingüístico do teatro; talvez o Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, possa nos subsidiar na tentativa de pensarmos a vida em sua simplicidade e em sua totalidade, pensar em como artistas que somos lidamos com a vida e a arte, pensarmos a melhor maneira de realizarmos esse transpor de dimensões, sonharmos e buscarmos compreender essas mutações tão necessárias quanto inadiáveis do ser humano, do ator, do processo de ensaio, da apresentação, do agradecimento, da volta ao ser humano, do constante pulsar do teatro e da vida. Pensarmos um estudo metalingüístico da vida em suas diversas dimensões.