Assim como a postagem anterior, falamos agora, mais brevemente, sobre a montagem seguinte, levada ao palco seis meses depois da estréia de "As Bruxas de Salém", de Arthur Miller. Desta vez a pesquisa recaiu sobre um texto não dramático, um conto de Fiódor Dostoiévski, chamado "Noites Brancas", escrito em 1848 na cidade de São Petersburgo, na Rússia, e considerado uma das obras primas do autor.
A montagem teatral
que propomos é livremente inspirada no conto, onde buscamos focalizar,
tanto na adaptação dramatúrgica quanto na encenação, os aspectos emocionais e
psicológicos encontrados nas personagens desta história e que são inerentes ao
ser humano, independente de época e localização geográfica. Portanto, a
dramaturgia não é uma mimese da obra literária, apenas a refletiu sendo por ela
inspirada, assim como a encenação não obedece a padrões realistas. Os
principais pontos de discussão abordados são: Solidão, Desejos, e
Relacionamento do ser humano com o mundo que o cerca e com o seu próximo. Em
anexo à montagem teatral, elaboramos, como parte do projeto, a edição de um
livro detalhando o processo de criação e execução da peça, registrando todo o
método de trabalho desde a concepção até a execução, como um importante produto
agregado que torna pública e perene parte essencial desta específica
experiência teatral. Este livro, que também foi preparado para "As Bruxas de Salém" e que por questões diversas deverá ser editado e lançado antes do primeiro, inicia a série de GuideBooks que tenho o objetivo de editar.
Algo
de característico da escrita russa de uma época soa muito forte no conto
“Noites Brancas”. O sentido da observação, quase com uma frieza aparente que
chega perto do incômodo; uma sensação de ócio, o ócio nem sempre criativo dos
dias longos demais, onde as noites são iluminadas pelo sol e o organismo as
absorve como dia, alongando-o; o caminhar de uma sociedade onde as carruagens e
a tipografia são modernidades tecnológicas; o cuidado com as palavras, bem
colocadas, escolhidas e pronunciadas, encasteladas pela gramática; enfim, um
conjunto de fatores que aproximam os escritores de uma época e região emoldura
essa obra de Dostoiévski.
Para trazer essa história ao palco foi
essencial considerar ainda o quanto dessa ambiência era desejável para a
proposta cênica, o quanto da tristeza da solidão desesperançada ou da
ludicidade da ingenuidade de sonhos infantis pesariam para atingirmos as
emoções que nos interessam ressaltar no público, não deixando, apesar disso, de
ser referencial à obra literária. Quanto aos temas que nos interessam discutir,
sob a inspiração do conto, e que por ele nos foram suscitados quando o lemos,
como encadear as chaves que devem acioná-los e, para além disso, com que meios
e propósitos; o quanto de realismo é necessário para contar esta história sob
nosso ponto de vista? Escolhemos o ponto de vista onírico, amparados pela
própria auto conceituação do protagonista, e isto nos possibilitou a leveza
necessária à agilidade que desejamos, uma ordem não necessariamente cronológica
no encadeamento das ações, e uma liberdade conceptiva cênica e dramatúrgica que
possibilita trazer para os dias atuais essa história, mesmo que sejam assumidas
as características da época em que Dostoiévski a conta. A encenação conta com
um vigor semiológico acentuado, além de referências e construções imagéticas
sensibilizadoras.



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