segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Don Juan


“Entre as Dobras dos Vestidos”

por Rogério Rasées






          Tradução e Adaptação – a tradução e adaptação da peça apresentam especificidades interessantes e necessárias, que idealmente devem ser explicitadas, o que faremos a seguir. Iniciaremos com algumas definições:

Tradução: s.f. Ação de traduzir, de transpor para outra língua: a tradução de um discurso. / Obra traduzida: ler uma tradução de Homero. / Interpretação: tradução do pensamento de alguém. // Tradução automática, tradução de um texto por meio de máquinas eletrônicas. (Dicionário Aurélio)


Adaptação: s.f. Ação de adaptar; resultado desta ação. / Transposição de uma obra literária para o teatro, televisão, cinema etc.: este filme é adaptação de um romance antigo. / Arranjo, adequação de uma obra estrangeira que, além da tradução, implica modificações do texto original. / Correspondência, nos seres vivos, entre a forma e a estrutura de um órgão e suas funções: adaptação das patas do cavalo para a corrida. / Integração de uma pessoa ao ambiente onde se encontra: a adaptação escolar de uma criança. / Esforço para realizar esta integração: a inteligência humana é uma constante adaptação. // Adaptação ao meio, ação modificadora dos fatores externos sobre o comportamento e a estrutura dos organismos vivos: adaptação das plantas ao clima seco. (Dicionário Aurélio)




          Don Juan é, de fato, um grande arquétipo, e apresenta ambíguos e profundos significados. Ele é o maior dentre os conquistadores de mulheres, e também o maior dentre os que as traem. Perseguido pelas mulheres, ele é mais que um homem, é uma força da natureza, uma força sexual e, portanto, também, sob o ponto de vista desta natureza, uma força irracional. Com o passar do tempo, desde suas primeiras histórias, contadas na Espanha e de lá espalhadas até a Itália por tradição oral a partir do século XIII e, depois de certo momento, também registrada pela dramaturgia de diversos artistas até os dias de hoje, este arquétipo cresceu e assumiu cronologicamente diversas significações entre metáforas e metonímias.
          Eu acredito que todas as peças clássicas traduzidas precisam ser retraduzidas periodicamente. Quando estas peças foram escritas elas dialogavam imediatamente com suas plateias, que não são as plateias atuais. Nós que trabalhamos também como tradutores e/ou adaptadores precisamos nos esforçar com o objetivo de encontrar maneiras de construir esta ponte que torne o diálogo de tais textos, com a nossa plateia atual, tão completos quanto os de outrora. Uma tradução/adaptação executada em 1920, 30 ou 80 irá necessariamente refletir as convenções idiomáticas e teatrais relativas a estes períodos, posto que tanto o idioma quanto o teatro são elementos vívidos e dinâmicos. Mas falo sobre duas coisas: Tradução e Adaptação. Uma coisa é traduzir uma peça, outra é adaptá-la para uma plateia moderna. Dentro de uma tradução, por vezes, é necessário um certo grau de adaptação, todavia deve-se ter cuidado, há um ponto de limite que precisa ser respeitado. O ponto principal é manter o público atual em mente durante todo o processo. Desde que algo tenha sido escrito para ser engraçado ou irônico, por exemplo, então se espera que encontremos formas de tornar este ponto engraçado ou irônico para a plateia atual, e muitas vezes apenas a tradução literal das palavras não é suficiente. A intenção deve estar viva no texto. De fato, com relação a peças teatrais, a tradução desta intenção no decorrer do texto é o ponto chave, mas entra aí um outro fator complicador – a real habilidade do tradutor para identificar esta intenção, e ainda assim sempre restará uma abertura para discussão. Considerando que o tradutor/adaptador encontrou a intenção exata para cada linha do texto, nos deparamos com outro complicador: os atores deverão interpretar esta intenção, que também deve ser compreendida por eles e pelo encenador, e factível, ou seja, deve ser escrita pelo tradutor/adaptador de uma forma passível de ser encenada. Por conta disto acredito que um dramaturgo ou o próprio encenador são os profissionais mais indicados para traduzirem e/ou adaptarem textos teatrais; existe um artesanato que pode fazer com que se percam, “entre as dobras do vestido”, os tradutores que não possuam tal habilidade, a visão cênica.
          No nosso caso particular, a tradução/adaptação do texto de Molière foi realizada por mim, um dramaturgo que é o próprio encenador. Pessoalmente não vejo o teatro como simples entretenimento, e não trago à cena um texto sem que ele me mova por questões que julgo importantes o suficiente para serem discutidas. Não obstante à busca natural pelo sentido e pela intenção do texto, ao traduzi-lo e adaptá-lo busco manter ao máximo a fidelidade literária. Percebo já há algum tempo, não sem incômodo, que dentre as pessoas dedicadas ao ofício teatral existe uma parcela significativa que ou não compreende ou não tem o interesse de compreender quem foi Molière e o que representa a sua obra. Isto, por si só, não é nenhum problema e é fato concernente à individualidade de cada um. O problema é quando esta parcela de artistas se propõe a falar sobre Molière e encenar seus textos; via de regra o resultado é reducionista e, muitas vezes, constrangedor. Há alguns dias, em um ensaio, escutei uma pessoa que realizava a função de direção dizer: “Isto não é Molière, isto não é palhaçada!”. Me calei vendo a que ponto, inúmeras vezes, nos falta bagagem e estofo para falarmos de algo. Molière não é “palhaçada”, que fique registrado. Em sua dramaturgia encontramos mais crítica e até mais discussão existencialista (o que é o homem, quem é o homem, o que esse homem faz ou tem de fazer nesse mundo?) do que em muita dramaturgia que vemos desde sempre. Possivelmente esta confusão/quase preconceito/ignorância se deve à proximidade de Molière com a Commedia dell’arte – outro assunto pouco entendido. E Molière também não é Commedia dell’arte. Com certeza essa confusão se deve ao fato de Molière com sua companhia, em Paris a partir de 1658, ter unido forças com uma famosa companhia de Commedia dell’arte – a de Tibério Fiorelli, e ao lado de Fiorelli ter dividido o espaço do teatro Petit Bourbon. Ambas as companhias ganharam muito artisticamente com essa união, e especialmente Molière aprendeu muito da Commedia com um dos maiores artistas da época, Tibério Fiorelli, que a esta época já estava em seu período final e, portanto, muito experimentado e tecnicamente capaz. A admiração de Molière pela Commedia dell’arte e por Fiorelli o levou a escrever e encenar a peça “Sganarello”, em 1660, como um tributo ao amigo e à Commedia.
          Sganarello volta a aparecer, com algumas modificações, em 1665 como o criado de Don Juan. Muito da encenação e do que a peça tem a intenção de comunicar se deve à compreensão da relação destas duas personagens. A encenação que preparamos não apresenta, como equivocadamente constantemente vemos, os traços da Commedia dell’arte. Temos a intenção de focalizar a discussão levantada por Molière quanto à hipocrisia, o abuso de poder e, quase veladamente, a falta de honestidade apresentada no texto, pelo seu ponto de vista mais existencialista. A não fixação de temporalidade na encenação, nem em roupas ou costumes, é um ponto de importante observação que traz contemporaneidade à encenação ao mesmo tempo em que simplifica alguns fatores essenciais. Por conta disto, talvez encontremos nas falas originais em que se detalham com pormenores o figurino das personagens e alguns de seus costumes o ponto de maior liberdade adaptativa agregada à tradução, bem como na supressão de uma determinada cena entre Don Juan, Sganarello e Pierrot escrita como uma clara gag da Commedia dell’arte. Em um primeiro momento de pesquisa teórica e prática temos a previsão da realização de uma leitura dramatizada aberta ao público em março de 2013, com local e data exata a serem brevemente confirmados, e no final de maio de 2013, também pendente de confirmação de agenda e local, algumas apresentações da encenação em seu primeiro nível de processo – a encenação artesanal com atenção à qualidade e tecnologia do trabalho atoral e seu alcance junto à plateia. Com esse primeiro nível de pesquisa teórico-prática concluído estaremos aptos para finalizar a encenação com o advento das demais tecnologias previstas no estudo, focado para as salas de apresentação. Muito em breve teremos mais informações. Aguardem!

domingo, 27 de janeiro de 2013

Noites Brancas Overview

por Rogério Rasées

Fechando informações sobre o espetáculo Noites Brancas, um vídeo sobre a peça com algumas cenas e entrevistas com o diretor e o elenco.


Em breve informações sobre a produção atual: "Don Juan", de Molière
Aguardem!