Amar é dar o que não se tem para dar"
"Amar é dar o que não se tem para dar". Assim o amor é definido por Lacan em um de seus Seminários. Essa afirmação nos sugere um paradoxo: como pode alguém dar o que não tem para dar?
Dando simplesmente o que tem - não o que lhe sobra para dar, mas o que tem para si. É sobre renúncia que estamos falando, sacrifício. Então se o amor não é impossível, é no mínimo irreconciliável com a idéia de felicidade vinculada ao amor romântico ou à embriaguez do enamoramento.
A ilusão amorosa, bem como as contradições humanas, são temas recorrentes em Shakespeare. Assim, é bastante significativo que, o que leva Romeo à festa onde conhece Julieta, é o desejo de encontrar Rosaline, pouco depois de ter assegurado ao primo Benvolio que morreria solteiro caso Rosaline se negasse a desposá-lo.
Mais adiante, ele é advertido por padre Lourenço de que apenas amou Rosaline por algumas semanas e que ao se casar com Julieta, teria que amá-la para o resto da vida. E é à própria vida que Romeo terá que renunciar para viver este amor - paradoxalmente.
Em "Muito Barulho Por Nada", Shakespeare nos mostra como o sentimento amoroso é forjado a partir de nosso próprio narcisismo. Trata-se de mais uma contradição confirmada séculos mais tarde pela psicanálise: é à nossa própria imagem refletida no outro que amamos.
Imperfeitos que somos, amamos, cada um à sua maneira, sempre imperfeitamente. O quê dizer sobre o amor de Tróilo e Créssida? A nada renunciam um pelo outro; no prólogo da peça somos informados de que "Helena , mulher de Menelau, dorme com o voluptuoso Páris em Tróia" e que por esse amor - voluptuoso - uma guerra foi deflagrada; e é a poucos instantes de se entregarem ao apelo irresistível dos sentidos, após meses de antecipação e espera, que nossos anti-heróis trocam juras de amor e fidelidade.
Sem uma análise mais aprofundada de cada personagem e das circunstâncias dadas, podemos inferir que, mais uma vez, Shakespeare nos aponta as ilusões e fantasias inerentes ao enamoramento. Desta vez, desvelando o papel primordial desempenhado pelo desejo carnal na constituição do sentimento amoroso ( ou seria mais apropriado dizer "ilusão amorosa"? ), sempre imperfeito e contraditório como todos nós


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