sábado, 6 de março de 2010

A Responsabilidade Artística

por Rogério Rasées

           Na madrugada de 17 ou 18 de agosto de 1936 foi assassinado o poeta e dramaturgo Federico Garcia Lorca, em Granada – Espanha, terra natal de sua mãe, como uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola. Justifica-se oficialmente seu assassinato alegando seu alinhamento político com a República Espanhola e pelo fato de haver sido abertamente homossexual. Mas será que esses foram os motivos reais? Ao observarmos outras ditaduras, nas mais diversas regiões do planeta, percebemos que uma das primeiras atitudes é o cerceamento, censura e até mesmo eliminação de artistas em geral, especialmente os que trabalham com a palavra, como atores, dramaturgos, músicos e poetas. Durante o regime de Saddan Hussein, no Iraque, foram proibidos todos os encontros de poetas, todos os saraus, e as edições literárias corriam sob pesada censura. Mas que motivo tão sério poderia haver para que esses regimes se preocupem tanto com a arte?
                Possivelmente essa preocupação tem origem na percepção de que o artista tem a sensibilidade de retratar o mundo ao seu redor, bem como a de atingir os sentimentos e pensamentos do seu público. E justamente esse poder, aliado a um senso crítico apurado, pode se tornar uma ferramenta absolutamente perigosa se utilizada contra o regime, assim como, pelo mesmo motivo, torna-se uma arma poderosa quando controlada pelos poderosos, como fez Stalin, para citar apenas um exemplo.
               Muito se fala sobre a responsabilidade funcional de profissões como a engenharia, a medicina e o direito. Generaliza-se a idéia de que a cultura e a arte, nas suas mais diversas manifestações, observadas sob o status de profissões, sejam menos imputáveis de responsabilidade que as primeiras: “São voltadas à diversão e ao lazer” – dizem. Atrevo-me, todavia, a refletir sob um ponto de vista que transcende o material. Sim, um engenheiro, caso não calcule perfeitamente as estruturas, poderá causar grande catástrofe e ocasionar o óbito de inúmeras pessoas; um advogado, por falta de perícia, poderá levar um inocente ao cárcere ou livrar do cárcere àquele que deveria ocupá-lo; um médico poderá perder a vida de um paciente, caso não esteja bem preparado para seu ofício. O artista, entretanto, alcança o cerne da vida do ser humano – seu coração, suas emoções, seu espírito. Há, ainda, outro aspecto importante a ser considerado: a popularidade do artista. Há 30 anos dois álbuns clássicos da banda Judas Priest, “Stained Class” e “Hell Bent For Leather” (ou “Killing Machine”, dependendo do país), causaram o envolvimento do Priest com os tribunais da América. A temática de algumas letras de "Stained Class" privilegiava as metáforas, a ficção científica ("White Heat, Red Hot") e até seres extraterrestres, caso de "Invaders". Supostamente, algumas mensagens de liberdade e esperança – segundo a banda – foram entendidas de outra forma e foram usadas contra o Priest, acusado de incitar dois jovens americanos que cometeram suicídio em 1985. As famílias de Raymond Belknap (que faleceu na hora) e James Vance (morto três anos depois quando estava internado em uma clínica por causa de depressão) decidiram culpar o Priest pela tragédia, pois consideravam que "mensagens implícitas" de "Do It" (faça isso) em "Better By You, Better Than Me" e outras "diretas" contidas nas letras de "Heroes End" e "Beyond The Realms Of Death" incitavam jovens ao suicídio e que os jovens atiraram contra si por causa da destas "mensagens". 
             Evidentemente não podemos atribuir o suicídio dos fãs à banda, mas certamente algum grau de responsabilidade lhe caberá. Sinto, portanto, uma extrema necessidade de pensarmos, como artistas, na responsabilidade do trabalho que realizamos. Como reagiria alguém que, já vitimado pela depressão e desequilibrado, assistisse-nos em um trabalho que incitasse, por exemplo, ao suicídio? Não quero, com isso, inaugurar uma cruzada ética e moral na arte, desejo apenas abrir um novo ponto de raciocínio e consideração, que nos permita fortalecer, aprimorar e enriquecer nosso fazer artístico, engrandecer e formar nossa consciência e cultura, que sinto, cada vez mais, degradada pela falta de responsabilidade e de auto-respeito com que alguns poucos dentre nós tratam o que vemos como sagrado – a arte. Continuemos a encenar MacBeth e Um Inimigo do Povo, Calígula ou Medéia, mas busquemos manter o bom-senso. Que percebamos, de uma vez por todas, a força da nossa arte na transformação da nossa própria vida, na transformação da sociedade da qual fazemos parte e participemos efetivamente. E que com nossa arte tenhamos responsabilidade para merecermos liberdade sempre!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Observações sobre "Jogo de Cena" de Eduardo Coutinho

por Rogério Rasées




               O filme “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho, mostra-se exatamente como seu título. Apresenta algumas personagens – que são pessoas reais – com suas histórias reais, e atrizes que interpretam essas personagens, não sem um certo jogo de cena do diretor. Dentre essas atrizes algumas são extremamente conhecidas, famosas, outras nem tanto, e há ainda atrizes que muito poucas pessoas reconhecem, e isso nos possibilita observarmos os matizes e dificuldades de interpretação das personagens. Essas dificuldades se apresentam em diferentes escalas, desde a essência do trabalho da atriz durante a “solidão” do ensaio e a diferença de apresentá-lo – seja a um público de teatro ou a uma câmera – , até à questão do aprofundamento desse trabalho de construção no que concerne ao que a atriz/ator alcançou nesta construção em contrapartida ao que poderia ter alcançado. Observando as personagens identificamos que, ao contar suas histórias, há uma carga de emoção e de experiência de vida que, à atriz que desenvolve um trabalho de construção dessa personagem sem a intimidade desses fatores torna-se quase impossível. Essa questão traz-nos a reflexão a respeito dessa experiência de vida. O que representa essa experiência? A idade? Os diversos acontecimentos que se viveu? Acredito que sim, mas, para muito além disso, acredito que o que se apreendeu do que se viveu é o mais importante. Afinal do que adiantaria alguém ter vivido oitenta anos, através dos quais tenha visitado todos os lugares desse planeta e conversado com todas as pessoas, se durante todo esse percurso não parou para se perguntar sobre como tudo isso lhe poderia ser útil, mantendo sempre uma postura egoísta e egocêntrica? De fato, mostra-nos a vida muito maior que a arte que a ela é indispensável.
            É esse filme uma obra excelente para estudarmos o ator, a interpretação, e todas as questões que poderiam se tornar um livro, uma tese a ser defendida, se discutida. Não temos essa pretensão. Apenas anotarmos os pontos que nos chamaram mais a atenção. Situações todas, a despeito de sua diversidade, que refletem num único ponto final – o trabalho do ator. Já comentamos sobre as experiências de vida, o que abrange definitivamente a vida dessas pessoas-personagens, mas dentro disso podemos dizer de pontos mais detalhados. A crença, por exemplo. A atriz Andréa Beltrão relata-nos a extrema dificuldade que sentiu em manter a serenidade que a personagem apresentou ao contar sua história, conferindo essa serenidade à condição de crença espiritual da personagem, estranha a ela, Andréa Beltrão, atriz e descrente. Fernanda Torres relata, a respeito de religiosidade, sobre o candomblé e da experiência vivida, por ela própria ou pela personagem – não fica claro, como é o mote principal de todo o filme – o que para essa observação é indiferente. Em suas palavras: “O Candomblé é Freud na prática!”. Não temos que concordar ou discordar, não é um julgamento de valor ou verdade, é apenas uma observação da importância de, como atores e diretores, como artistas enfim, considerarmos a questão da crença. Outras personagens falam de sonhos proféticos, e utilizo essa palavra sem qualquer intenção mística ou fantástica, mas como se essa profecia revelada nos sonhos fossem avisos ou acordos realizados entre os que estão de um lado e de outro da vida, orientados para um bem comum, com utilidade definida. E são como visões que movem, impulsionam e alentam essas personagens, visões que, não obstante a crítica dos incrédulos, formam-lhes a experiência de vida da qual já falamos acima. E uma vida que, independente da religião, toma outros matizes, como um mundo de várias dimensões, pelas quais se pode transitar desde que observadas certas considerações e ambiências especiais. E não seria o teatro, de certa forma, uma outra dimensão da vida, com suas considerações e ambiências especiais para que por ele transitemos? Particularmente gosto de acreditar que sim.
O Jogo – essa brincadeira de vestirmos uma personagem, o Rito – as questões de valor espiritual e religioso, as crenças, geram uma teatralidade na própria vida. A vida é teatral. Representamos desde o momento que nascemos, quando, por exemplo, choramos porque percebemos que assim recebemos mais atenção, da qual necessitamos, do que nos alimentamos, como nos alimentamos de aplausos num teatro – considerando sem pieguice ou falsa modéstia. A diferença, a meu ver, é no objetivo desse jogo e nas circunstâncias que o compõem. No teatro expomos, temos o objetivo de mostrar, mostrar a bem-vinda lágrima, como comentou Marília Pêra, enquanto na vida essa lágrima, via de regra, ficou marcada como um sinal de fraqueza, e a fraqueza tentamos esconder. “Homem não chora!” – tornou-se um jargão muito utilizado durante muito tempo. A família, sua constituição e manutenção, os relacionamentos familiares em especial, as posturas e oportunidades, todos são fatores componentes desse ator, ou atriz, que desenhando sua personagem podem utilizá-los como ferramentas para um trabalho mais denso e convincente. Mas a partir dessa afirmação corre uma outra questão: como julgar o grau de convencimento – qualidade – do trabalho de um ator? Podemos dizer que as atrizes do Jogo de Cena, foram “piores” que suas personagens? Se considerarmos que as pessoas têm personalidades diferentes, e se admitirmos que o ator não tem de ser a personagem mas, a seu turno, viver as circunstâncias da vida da personagem, dentro desta outra dimensão que é o teatro, como ele as viveria se ele, na “vida real”, passasse por elas, que juízo de valor poderemos fazer que vá além da técnica de representação?
Parece-nos esse filme um pedido de personagens. Como Pirandello escreveu “Seis personagens à procura de um autor”, aqui também temos “algumas personagens à procura de um ator”, e uma questão para refletirmos: Será que o autor que as personagens de Pirandello encontraram, ou não, seria melhor do que Deus – autor da “vida real”, pelo menos para a maioria de nós? E se Deus está em toda parte, será que essas personagens não o encontraram pelas mãos de Pirandello? Será que as personagens de Jogo de Cena encontraram atrizes melhores que elas próprias, ou foi como um jogo de cena, ao verem-se de fora, assistindo a uma atriz, na sua dimensão da vida, vivendo sob sua perspectiva o que elas, personagens, viveram outrora, com sua própria e inigualável constituição como seres humanos?
       As personagens de Jogo de Cena parecem entrar, invadir o palco onde se filma na tentativa de convencer o diretor a mostrar suas histórias, como as personagens de Pirandello invadem o palco tentando convencer o diretor a encenar suas vidas. Com todas as suas implicações a ação da peça de Pirandello torna-se, digamos, um estudo metalingüístico do teatro; talvez o Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, possa nos subsidiar na tentativa de pensarmos a vida em sua simplicidade e em sua totalidade, pensar em como artistas que somos lidamos com a vida e a arte, pensarmos a melhor maneira de realizarmos esse transpor de dimensões, sonharmos e buscarmos compreender essas mutações tão necessárias quanto inadiáveis do ser humano, do ator, do processo de ensaio, da apresentação, do agradecimento, da volta ao ser humano, do constante pulsar do teatro e da vida. Pensarmos um estudo metalingüístico da vida em suas diversas dimensões.