Um Ator sem Face às Margens do Rio
Por Rogério Rasées
Um ator se prepara na coxia. Maquila-se para a vida. Decora seus papéis e os leva consigo ao próximo guichê de banco – contas a pagar. Aquece o corpo caminhando pelas ruas, a voz persistente buscando patrocínios, quase sempre em vão; não... sempre em vão. Quem patrocina um ator sem face? Sem face permanece às margens do Rio de Janeiro...
Anda pelas ruas olhando o chão à busca de centavos de chances que talvez alguém tenha perdido, olhando à frente nos estudos e preparações para o seu ofício, ainda que tão difícil, olhando para o céu, implorando que em algum momento, por entre as nuvens, quem sabe na direção do Corcovado, surja um Deus Ex-Machina que solucione e finalize sua tragédia...
Quando olha para os lados, percebe-se acompanhado de uma plêiade de “desfacetados” com seus olhos maquiados e borrados como os de velhos palhaços após o espetáculo. Uma multidão de solitários. E as pessoas “normais” os olham, ora com crítica, ora com pena, mas ele gostaria de saber quantos desses “normais” sentem um décimo do seu prazer e alegria quando estão jogando no palco, ou fazendo jogar... Ainda que, na maior parte das vezes, sentindo-se miseráveis, como o vagabundo de Chaplin ou Estragon de Beckett...
Enquanto anda pelas ruas, olha os out-doors, bus-doors, letreiros em sinais e em bancas de jornais, e vê que para uns poucos, alguns nem tão bons assim, a boa fortuna da comédia se apresenta em toda a sua pujança. E sonha em encontrar e conquistar a prima mais humilde dessa comédia, em suas andanças, virando alguma esquina desavisada. Não chega nem a sonhar com a mais bela das comédias... quer apenas um casamento amoroso, que lhe possibilite alimentar suas filhas – criações artísticas – com o sorriso dessa humilde prima; não exige gargalhadas. Vive pelo amor, não se perde pela paixão. Mas ainda não... O Deus Ex-Machina ainda não surgiu, talvez ainda exista uma nova canção em sua tragédia, talvez para esse ator sem face ainda falte também perder os olhos, como Édipo... E, às vezes chora, unindo-se ao coro... Coro de quebrar pedras, de lavar pratos, de servir mesas, de recepcionar em hotéis, de um sem número de incógnitas, incógnito, tragicamente diluído na falta de cor dessa multidão, buscando o que acha por sobra na falta de opção...
Mas não se entrega. Não por burrice ou teimosia; repete sem cessar: “por AMOR”! E por amor não se fixa nem na tragédia, nem na comédia. A dramaturgia que o acolhe é a ordem das circunstâncias de sua própria vida. E de seus sonhos tece poesias, como Friga tecendo nuvens... Um drama, talvez como o proposto por Diderot: com o público ignorado. Ou sonhando ter um público, para que possa sonhar em ignorá-lo; e isso defender como se discutisse consigo mesmo, tal qual Diderot e Dorval... Um drama dos seus dias e do seu lugar; um lugar seu por força de nele se encontrar, e nada mais...
E esse é o Drama Contemporâneo que este e tantos outros atores sem face interpretam, sempre às margens do Rio, de Janeiro a Dezembro, afogados em esperanças quase naufragadas, e quase náufragos felizes por, como amadores, amarem a dor de viverem seus Dramas Contemporâneos, da forma mais teatral possível. Ali ficam e se esmeram na tentativa de pescar oportunidades, olhos marejados, uma lágrima no olho esquerdo – desespero; outra lágrima no olho direito – trabalho; entre a tragédia e a comédia, às margens do Rio... esperando por Deus... às margens do Rio... às margens do Rio...


Muito lírica, pertinente e compartilhada é a descrição dessa trajetória silenciosa e solitária que percorremos diariamente, movidos por esse amor que se impõe, que nos escolhe antes que possamos escolhê-lo. Atores garçons, atores recepcionistas de hotel, vendedores em lojas de shoppings, professores de inglês... Movidos por amor às margens de um rio que flui caudaloso sem conseguirmos banhar-nos nele.
ResponderExcluirEntre uma e outra conta a pagar, temos sim, que confiar e nos reunir para criar nossas próprias oportunidades, produzir e mostrar do jeito que for possível, pensar outros espaços e públicos, aproveitar festivais e afins, construir uma trajetória, uma história, um passado de pequenas realizações para enfim ter direito ao patrocínio que deveria ter fomentado, incentivado e apoiado cada passo do caminho desde o início... Até lá, nossos patrões são nossos mecenas sem o saber, enquanto levamos uma vida dupla, acalantando o ator que desempenha o papel de garçom, recepcionista, vendedor, professor... Com amor e confiança.
"POR AMOR"... e a luta é por não esquecer a razão fundamental.
ResponderExcluirAmigo, OBRIGADA por esse texto. Li muito, muito depois de postado, mas no momento exato que precisava ler!