quinta-feira, 22 de abril de 2010

Ondas no Lago

por Rogério Rasées

Tudo em nossa vida, do maior conjunto ao menor detalhe, age e reage ao que nos cerca. É ingenuidade acreditar que mesmo nos omitindo estaremos imunes a esses abalos. Dentro do campo artístico, muito especialmente, nossas ações gerarão reações que nos afetarão diretamente, e essas ondas de conseqüências não se diluem com facilidade, para pacificá-las precisamos nos esforçar por controlarmos a nós mesmos, e por modificarmos com cuidado o que nos cerca.
            Houve um momento na história do nosso país, não muito distante, em que a censura e a crítica atingiram níveis inadmissíveis. As artes, nesse período, desempenharam um papel fundamental na luta contra os abusos, bem como no alívio de seus resultados, e essa luta ficou marcada a ferro e fogo, com fotografias, vídeos e relatos, nos discos, nos livros, e em vários processos que se esforçaram por manter viva essa lembrança, para que não a deixemos repetir. Há, entretanto, algo a considerarmos. A política mudou com os tempos. Era um período onde a ditadura exigia uma atitude quase guerrilheira das artes, e as militâncias políticas sobejavam. A opressão era demasiada, o governo assassinava pessoas que não o aceitavam, outros fugiam pedindo asilo político em outros países, e isso marcou muito as pessoas que viveram aquele período, tanto que muitas delas congelaram nessa atitude. Atualmente esse tipo de governo e necessidades não existem mais. São outras necessidades. Estamos muito distante do mínimo ideal, mas não há como negar que, de certa forma, as coisas melhoraram. A censura não veta obras artísticas, como outrora, e a arte politicamente militante não é justificável pelos mesmos prismas. Evidentemente a arte e a política estarão sempre ligadas, a certa medida, com maior ou menor intensidade. Mas buscar manter, ainda hoje, a mesma postura daquela época é, no mínimo, insensatez. Os consumidores do mercado cultural e artístico não são mais os mesmos, ou, pelo menos, não têm mais as mesmas necessidades. Toco nesse assunto, admito, como um desabafo. Estudo artes, e estudarei até morrer, e sofri uma crítica ferina por não querer dar esse cunho político, a meu ver injustificável, a uma obra que estou trabalhando. E essa crítica, quase em tom agressivo e ofensivo, veio diretamente da pessoa designada para ser o meu orientador nesse processo. Chegou-me com a frase final: “Desculpe a franqueza, mas acho que orientar é isso!”. E eu digo, a meu turno, que ele deveria saber o que é orientar e não achar, afinal é o trabalho dele. E ainda mais; a franqueza, muitas vezes é uma máscara da vileza. Não considero correto usar as palavras que quiser, no tom que bem entender, chegando a faltar com o respeito com as pessoas, e depois desculpar-se sob a máscara da franqueza.
            Acredito que a função de orientar seja a de instruir, indicar o que deve ser feito, como deve ser feito e porque, corrigir, criticar – SIM – construtivamente, e também incentivar. A crítica que recebi nesse processo serviu apenas para me desmotivar. E por esse orientador, devo confessar, tenho, hoje, noventa por cento menos respeito e nenhuma admiração. Mais uma decepção que absorverei, e trabalhando sob sua égide, ou “deségide” (permitindo-me inventar um novo termo), lutarei por aproveitar o que de melhor ele terá para me oferecer e descartarei suas críticas amargas. A crítica é essencial, sem ela não temos como nos melhorarmos; se nos postarmos avessos às críticas, “protegendo-nos com a armadura do orgulho e empunhando a espada do egoísmo”, não evoluiremos. Mas a crítica deve ser uma ferramenta para que se melhorem as coisas, deve ser, repito, construtiva; quando o que temos visto e vivenciado são críticas simplesmente destrutivas. Será esse um mal, nessa cidade do Rio de Janeiro? Acho preciso conscientizarmo-nos disso. Por vezes a crítica construtiva também nos incomodará, porque ferirá nosso orgulho – e digo isso por mim – mas nesse caso é um problema de foro íntimo. O problema é quando a crítica é preconceituosa, tendenciosa, e mesmo, como temos visto muito ultimamente, malévola. Precisamos ter a atitude política de lutarmos contra isso; e como foi atitude política que meu orientador me cobrou, digo-lhe: “Aqui tens minha resposta, publicada após ter-te informada. Desculpe a franqueza, mas tenho certeza que você não sabe o que é orientar!” Essa é minha maneira política de lutar: recebi uma nova pedrada, e ela provocou ondas no lago.

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