quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Procusto Entronizado

por Rogério Rasées


“Da  serra  de  Elêusis  ao  Monte  Olimpo”


A arte, o fazer artístico e o artista em sua busca, como o próprio ser humano que é...
Quem desejar faça a analogia: ainda que pareça improvável sinto-a entre a arte e a humanidade...

            As mitologias de todos os povos nos trazem sérias reflexões acerca de inúmeros posicionamentos pessoais, sociais e culturais. Em cada uma delas as sociedades que as cultivaram estabeleceram seus mitos – deuses, gênios, gigantes, espectros, seres de toda ordem, enfim – como signos que remetiam ou representavam forças da natureza, abstrações mal compreendidas, qualidades inerentes aos homens e aos deuses. De todas estas mitologias, a que nos chegou com mais força e completude foi a Mitologia Grega, em muito graças aos registros dos filósofos, historiadores e poetas como Platão, Heródoto, Homero, Ésquilo, Eurípedes e Sófocles.
Atendo-nos à Mitologia Grega, estudando-a, percebemos que ela segue uma determinada ordem cronológica, engendrando em sua teia todas as suas personagens, com maior ou menor grau de envolvimento e repercussão entre elas, situações onde podemos perceber o mecanismo de causa e efeito nas menores como nas maiores coisas, intimamente dependente da vontade – em geral dos deuses e semideuses.  Objetivamente focalizaremos uma destas personagens, neste breve artigo, que podemos sem temor considerar um signo de intolerância, chamado Procusto. Também conhecido como "Procrustes", "Damastes"  ou  "Polipémon"  é uma personagem que faz parte da história de Teseu. Procrusto era um bandido que vivia na serra de Elêusis. Ele era o “dono” daquela escura floresta e assaltava todos os viajantes que passavam por seus domínios. Entretanto não se contentava em assaltá-los, as vítimas eram obrigadas a tornarem-se seus hóspedes por uma noite. Em sua casa, ele tinha uma cama de ferro, que tinha seu exato tamanho, para a qual convidava todos os viajantes para se deitarem, e caso o hóspede tivesse a sorte de possuir o exato tamanho da cama poderia ir embora na manhã seguinte ileso, obviamente sem os seus pertences. Mas se os hóspedes fossem demasiado altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os que tinham pequena estatura, eram esticados até atingirem o comprimento exato. Ninguém sobrevivia, pois nunca uma vítima se ajustava exatamente ao tamanho da cama. Continuou seu reinado de terror até que foi capturado pelo herói ateniense Teseu que, em sua última aventura, prendeu Procusto lateralmente em sua própria cama e cortou-lhe a cabeça e os pés, aplicando-lhe o mesmo suplício que infligia aos seus hóspedes.
O mito já foi usado como metáfora para criticar tentativas de imposição de um padrão em várias áreas do conhecimento, como na economia, na política, na educação, na história, na ciência e na administração. Procrusto representa a intolerância do homem em relação ao seu semelhante. E podemos ainda considerar que muitos homens, ainda nos dias de hoje, têm um “Procusto Entronizado” na própria personalidade. Como Procusto, perdem-se nos domínios de suas mentes como se estes fossem a própria serra de Elêusis, como se os sulcos de seus cérebros fossem as trilhas da floresta negra. E no recôndito desta floresta ele guarda a sua cama – numa medida que se perde entre a sua reputação e seu caráter – algo que significa exatamente o que este “Procusto” é aos seus próprios olhos viciados, e não admitindo que outras personalidades desrespeitem o gabarito de sua própria mediocridade, irrompe num impulso de correção violenta deste equívoco, transbordando toda a sua intolerância.
O mais triste, contudo, é a sua condição cega de imutabilidade, onde por incontáveis e consecutivas vezes encontra-se com o “Teseu” (talvez possamos assim rebatizar o destino – ou seja – as coisas que não se podem mudar na vida)  que, sendo mais forte e inevitável, corrige-o aplicando-lhe a pena dentro dos padrões por ele mesmo estipulados. E pena esta que deverá ser aplicada inúmeras vezes dado à condição de ampla ductilidade e resiliência da mente humana, até que sua visão, sanada a debilidade, reconheça a ele próprio – Procusto – necessitado de correção. Até este momento, a ordem de seu dia será a Intolerância.
Uma  atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar diferenças em crenças e opiniões. Num sentido político e social, é a ausência de disposição e/ou interesse para aceitar pessoas com pontos-de-vista diferentes. Como um constructo social, isto está aberto à interpretação. Uns podem defender que a intolerância é uma atitude tomada de maneira negativa ou hostil, em relação às opiniões alheias, não importando o grau de reação a estas opiniões. Pode estar baseada no preconceito, chegando mesmo à discriminação. Comumente ações como racismo, homofobia, etaísmo, segregação de todos os matizes como política e religiosa, são exteriorizações de um processo de intolerância que pode chegar à violência física, e até ao genocídio.
Na época dos descobrimentos o movimento colonialista foi baseado em parte, no egoísmo, na ganância e na falta de tolerância para com culturas diferentes. A forma como cada cultura tratou politicamente esta questão foi diretamente proporcional ao seu nível de tolerância. No Brasil colonial, por exemplo, podemos refletir se o nível de tolerância dos negros, trazidos como escravos da África, foi muito maior que o dos nativos sul-americanos; ou se a tolerância dos europeus colonizadores, por uma série de fatores, foi maior com os negros do que com os índios. De qualquer forma acabaremos sempre neste embate, que de sua parte será sempre controverso. A questão crucial, a meu ver, é portanto: Como sermos maleáveis ao ponto de caber na cama de todos os “Procustos” que encontraremos em nosso caminho, e como deixarmos de ser “Procustos” construindo camas de todos os tamanhos em nossas mentes para abrigar pessoas de todos os “tamanhos”? Talvez seja verdadeiramente um exercício lento, mas absolutamente necessário para que nós mesmos possamos ter melhor qualidade de vida – considerando nossa condição de seres socializáveis –, uma caminhada entre dois pólos da inconsciência: da ignorância inconsciente à sabedoria inconsciente. Do egoísmo e da intolerância do Procusto, em sua ignorância inconsciente (onde agimos mal sem que tenhamos percepção disto), passando pela ignorância consciente (onde agimos mal percebendo o que estamos fazendo), daí à sabedoria consciente (onde buscamos agir de forma correta, esforçando-nos para isso conscientemente), até chegarmos à sabedoria inconsciente (onde agimos com benevolência sem que precisemos nos preocupar ou nos esforçar para realizarmos este movimento, por já o termos apreendido). Este caminho da transformação de egoísmo em altruísmo, de intolerância em compreensão, talvez seja o caminho que cada um deverá encontrar a seu tempo, fugindo da serra de Elêusis de seu cérebro para o Monte Olimpo de seu coração.

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