Na madrugada de 17 ou 18 de agosto de 1936 foi assassinado o poeta e dramaturgo Federico Garcia Lorca, em Granada – Espanha, terra natal de sua mãe, como uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola. Justifica-se oficialmente seu assassinato alegando seu alinhamento político com a República Espanhola e pelo fato de haver sido abertamente homossexual. Mas será que esses foram os motivos reais? Ao observarmos outras ditaduras, nas mais diversas regiões do planeta, percebemos que uma das primeiras atitudes é o cerceamento, censura e até mesmo eliminação de artistas em geral, especialmente os que trabalham com a palavra, como atores, dramaturgos, músicos e poetas. Durante o regime de Saddan Hussein, no Iraque, foram proibidos todos os encontros de poetas, todos os saraus, e as edições literárias corriam sob pesada censura. Mas que motivo tão sério poderia haver para que esses regimes se preocupem tanto com a arte?
Possivelmente essa preocupação tem origem na percepção de que o artista tem a sensibilidade de retratar o mundo ao seu redor, bem como a de atingir os sentimentos e pensamentos do seu público. E justamente esse poder, aliado a um senso crítico apurado, pode se tornar uma ferramenta absolutamente perigosa se utilizada contra o regime, assim como, pelo mesmo motivo, torna-se uma arma poderosa quando controlada pelos poderosos, como fez Stalin, para citar apenas um exemplo.
Muito se fala sobre a responsabilidade funcional de profissões como a engenharia, a medicina e o direito. Generaliza-se a idéia de que a cultura e a arte, nas suas mais diversas manifestações, observadas sob o status de profissões, sejam menos imputáveis de responsabilidade que as primeiras: “São voltadas à diversão e ao lazer” – dizem. Atrevo-me, todavia, a refletir sob um ponto de vista que transcende o material. Sim, um engenheiro, caso não calcule perfeitamente as estruturas, poderá causar grande catástrofe e ocasionar o óbito de inúmeras pessoas; um advogado, por falta de perícia, poderá levar um inocente ao cárcere ou livrar do cárcere àquele que deveria ocupá-lo; um médico poderá perder a vida de um paciente, caso não esteja bem preparado para seu ofício. O artista, entretanto, alcança o cerne da vida do ser humano – seu coração, suas emoções, seu espírito. Há, ainda, outro aspecto importante a ser considerado: a popularidade do artista. Há 30 anos dois álbuns clássicos da banda Judas Priest, “Stained Class” e “Hell Bent For Leather” (ou “Killing Machine”, dependendo do país), causaram o envolvimento do Priest com os tribunais da América. A temática de algumas letras de "Stained Class" privilegiava as metáforas, a ficção científica ("White Heat, Red Hot") e até seres extraterrestres, caso de "Invaders". Supostamente, algumas mensagens de liberdade e esperança – segundo a banda – foram entendidas de outra forma e foram usadas contra o Priest, acusado de incitar dois jovens americanos que cometeram suicídio em 1985. As famílias de Raymond Belknap (que faleceu na hora) e James Vance (morto três anos depois quando estava internado em uma clínica por causa de depressão) decidiram culpar o Priest pela tragédia, pois consideravam que "mensagens implícitas" de "Do It" (faça isso) em "Better By You, Better Than Me" e outras "diretas" contidas nas letras de "Heroes End" e "Beyond The Realms Of Death" incitavam jovens ao suicídio e que os jovens atiraram contra si por causa da destas "mensagens".
Evidentemente não podemos atribuir o suicídio dos fãs à banda, mas certamente algum grau de responsabilidade lhe caberá. Sinto, portanto, uma extrema necessidade de pensarmos, como artistas, na responsabilidade do trabalho que realizamos. Como reagiria alguém que, já vitimado pela depressão e desequilibrado, assistisse-nos em um trabalho que incitasse, por exemplo, ao suicídio? Não quero, com isso, inaugurar uma cruzada ética e moral na arte, desejo apenas abrir um novo ponto de raciocínio e consideração, que nos permita fortalecer, aprimorar e enriquecer nosso fazer artístico, engrandecer e formar nossa consciência e cultura, que sinto, cada vez mais, degradada pela falta de responsabilidade e de auto-respeito com que alguns poucos dentre nós tratam o que vemos como sagrado – a arte. Continuemos a encenar MacBeth e Um Inimigo do Povo, Calígula ou Medéia, mas busquemos manter o bom-senso. Que percebamos, de uma vez por todas, a força da nossa arte na transformação da nossa própria vida, na transformação da sociedade da qual fazemos parte e participemos efetivamente. E que com nossa arte tenhamos responsabilidade para merecermos liberdade sempre!


Bravo! Precisamos ter esse compromisso ético moral para com a humanidade, afinal, recebemos um dom para ser Bem usado. Parabéns pelo blog!
ResponderExcluirParabéns pelo Blog!
ResponderExcluirMuito me alegra ver um trabalho de conteúdo crítico e bom gosto em favor da arte.
Ótimo! É isso aí, querido, arte e responsabilidade têm que andar juntas. Chega dessa confusão de arte ser igual a oba-oba, e artista, a porra-louca... Sempre escrevo comédia/peças e humor/poemas, mas ai de quem, equivocadamente, se limita apenas ao riso, poie sempre quero e digo algo mais... Parabéns, obrigado, e seja bem vindo ao meu Blog. Deixe comentário. Grande abraço!
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